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Editorial N.º 4
Capa da Cordel Literária n.º 4, junho de 2026
Cordel Literária

N.º 4 · Junho 2026

Gratuita · 60 páginas · a revista dos autores da casa

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Editorial · p. 2–3

cordelLiterária

Luis Rodrigues, CEO e Diretor do Grupo Cordel D' Prata, convida-o a uma nova viagem literária.

Ao longo dos últimos anos, a Cordel D' Prata cresceu lado a lado com centenas de autores, leitores e histórias. Esta revista nasce precisamente dessa ligação: uma forma de reunir pessoas, livros, recomendações e conversas que fazem parte daquilo que somos enquanto grupo editorial. Partilhamos não só livros, mas também o ambiente, os bastidores e a energia que se vive diariamente na nossa editora.

Vivemos um ano de grande evolução interna. Investimos em novas ferramentas, otimizámos processos e continuámos a modernizar a forma como acompanhamos os nossos autores. Mas no meio de toda a transformação digital, há algo que continua intacto: o prazer do livro físico. O prazer de encontrar leitores nas feiras do livro, de viver os eventos de lançamento, os dias de celebração com autores e todos os encontros que continuam a dar vida às histórias fora das páginas.

É também esse equilíbrio que define hoje o nosso grupo editorial. Entre a irreverência e imaginação da Meialonga e a identidade literária da Cordel D' Prata. Acredito genuinamente que fazemos aquilo que poucas editoras conseguem fazer hoje: criar uma verdadeira proximidade com os autores, através do acompanhamento, do contacto humano e das iniciativas que promovemos ao longo do ano.

Esta edição surge também num mês especial para nós. Em junho celebramos 9 anos de atividade. 9 anos de livros, autores, desafios, crescimento e milhares de histórias que passaram por esta casa editorial.

Esperamos que esta revista leve um pouco de Portugal, da língua portuguesa e daquilo que melhor sabemos fazer até todos os nossos leitores:

Contar histórias e aproximar pessoas através dos livros.

Luis RodriguesCEO e Diretor do Grupo Cordel D' Prata

Livros em destaque · p. 4–5

Romancesà sombra

Capa de «Eles Pensam», de Leal Pembele

Eles Pensam

Leal Pembele

Chamam-lhe estranho. Ele diz-se livre! Amadeu Rosa vive entre delírios, preconceitos e diagnósticos absurdos, até encontrar no amor a força para enfrentar o mundo. Um romance arrebatador sobre coragem, identidade e a luta contra o que nos quer calar.

O que nunca saberei

Micaela S. Pimentel

Quando o destino une duas almas separadas pelo medo, o amor transforma-se em redenção. Uma história profunda e arrebatadora sobre sentir demais, mesmo quando o mundo diz que não se deve.

E se for amor?

Tiago Sá Balão

E se o que a Maria sente pela Leonor não for só amizade? Neste livro vais encontrar pedaços de pensamentos, de memórias, de silêncios e de sentimentos da Maria. O diário de uma adolescente que dá vida a uma relação especial entre ela e outra rapariga: a Leonor.

Momentos entre nós

Bárbara Campos

Entre a música e o amor, nasce uma história feita de sonhos, tentações e segundas oportunidades. Cinco jovens, uma coreógrafa e um sentimento que desafia o ritmo da fama.

Amor em tempos de abril

João Coelho

Quando um rapaz leal ao Estado Novo e uma jovem que se opõe ao sistema se cruzam, sentimentos inesperados forçam-nos a confrontar as crenças que desde sempre moldaram as suas vidas.

Coração remendado

Matilde Silva

Alice, uma adolescente em luta contra a depressão, encontra em Afonso um amor inesperado e imperfeito. Entre recaídas, silêncio e reconexão, os dois descobrem que, às vezes, sobreviver é o maior ato de coragem.

Além do amor, existo eu

Beatriz Gaspar

Clara apaixona-se por Tomás, sem imaginar que a sua vida nunca mais seria a mesma. O que parecia perfeito tornou-se num ciclo de erros e mágoas. Agora, Clara precisa de descobrir se é capaz de se reconstruir e encontrar dentro de si o amor que sempre procurou em Tomás.

Docemente Nós

Guiomar Nunes

Manuela é uma jovem resiliente e lutadora que enfrenta a diabetes desde a adolescência. Começa a faculdade e, à medida que os desafios vão crescendo, conhece Daniel, uma caixinha de segredos. Será que se mantêm fechados a sete chaves ou desabrocham numa grande paixão?

Prometo-te o tempo

Cristina Cruz Ferreira

E se uma única escolha pudesse mudar toda a tua vida? Bárbara descobre uma misteriosa porta vermelha que a conduz a diferentes versões da sua própria existência. Cada decisão cria um novo destino... mas o tempo cobra sempre o seu preço.

Reportagem · p. 6–7

Cabe no bolso,
fica na memória

A Cordel D' Prata e o concurso que aposta no pequeno formato para revelar novas vozes.

Num tempo em que o livro disputa espaço com a pressa, os ecrãs e o imediato, a editora Cordel D' Prata escolheu ir em contraciclo: reduzir o formato para ampliar o alcance. Em 2025, o Concurso Livro de Bolso, lançado com foco na Região Norte, afirmou-se como uma proposta editorial e cultural que recupera a ideia do livro como objeto próximo, transportável, quase íntimo.

O projeto culminou num dia de apresentação pública no Mercado do Bolhão, no Porto, espaço carregado de memória urbana e hoje convertido num dos mais vivos palcos culturais da cidade. Ali, longe da solenidade das salas institucionais, dez novos autores viram os seus textos ganhar forma impressa: edições de bolso exclusivas, pensadas não como miniaturas de um livro maior, mas como obras completas, autónomas e assumidamente concisas.

O formato de bolso não é novo, mas raramente é tratado com a seriedade que esta iniciativa propõe. Em vez de ser encarado como produto secundário ou meramente económico, o livro de bolso surge aqui como escolha estética e editorial. Cabe na mão, cabe no dia a dia, e, talvez por isso, exige uma escrita mais intensa, mais depurada, sem excessos.

Já em 2024 a editora ensaiava este caminho, com a apresentação de edições especiais de bolso de obras do seu catálogo, num gesto de revisitação e aproximação ao leitor. O concurso de 2025 representa, contudo, um passo em frente: não apenas condensar o que já existia, mas lançar novas vozes diretamente neste formato, fazendo dele um ponto de partida e não um epílogo.

No dia da apresentação, o átrio do Mercado do Bolhão tornou-se uma pequena praça literária. Entre leitores habituais, curiosos que ali passavam e autores visivelmente emocionados, os livros circularam de mão em mão antes mesmo de serem lidos. Houve conversas breves, olhares demorados sobre as capas, leituras em voz alta que se fizeram ouvir entre bancas e colunas de ferro.

O ambiente foi deliberadamente informal. Sem palco elevado, sem distanciamento cerimonial, os autores foram apresentados um a um, com palavras breves sobre o percurso e sobre o texto agora publicado. Para muitos, aquela edição de bolso representava a primeira vez em livro, o primeiro objeto físico onde a escrita deixava de ser promessa para se tornar presença.

Essa opção por um espaço público e quotidiano não foi por acaso. Ao escolher o Bolhão, reforçámos a ideia de que o livro não precisa de isolamento para existir, podendo habitar os lugares de circulação, encontro e ruído. A literatura, ali, não interrompia o mundo, misturava-se antes com ele.

O Concurso Livro de Bolso selecionou dez autores, oferecendo-lhes não apenas a publicação, mas também um conjunto de exemplares impressos destinados à circulação direta. Trata-se de um modelo que alia reconhecimento simbólico a ferramentas concretas de entrada no circuito literário, num contexto editorial cada vez mais desafiante para quem começa.

Este compromisso com os novos autores é uma das marcas da Cordel D' Prata, tendo vindo a consolidar o seu trabalho junto da escrita emergente portuguesa.

Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso Capa de um dos dez livros de bolso do concurso

Em 2025, esse investimento ganhou ainda maior solidez com o anúncio da criação da gráfica própria da editora, reforçando o controlo sobre todo o processo de produção e permitindo experiências como esta, onde forma e conteúdo caminham juntos.

Há, neste projeto, uma dimensão quase política, ainda que latente: a defesa de uma literatura que circula, que se oferece, que não intimida. Um livro que cabe no bolso pode também caber num primeiro leitor, num gesto de descoberta, num início de percurso.

Além de um concurso, esta iniciativa configura-se como um ensaio sobre novas formas de edição e mediação literária em Portugal. Pequenos no tamanho, estes livros são, afinal, grandes naquilo que propõem: proximidade, risco e confiança na força essencial da escrita.

Os livros de bolso do concurso, empilhados
Dez obras, dez estreias, em formato de bolso
O público sentado no átrio do Mercado do Bolhão durante a apresentação
A apresentação, no átrio do Mercado do Bolhão, no Porto
Livros em destaque · p. 8–9

Estação dosPoetas

Camadas da Alma

Sérgio Paiva

Um livro de poesia que atravessa o amor, a perda, a dor e o renascimento. Cada poema é uma metáfora viva, uma cicatriz transformada em palavra. Mais do que versos, este livro é um espelho: em cada página, encontrarás pedaços de ti.

Capa de «Camadas da Alma», de Sérgio Paiva
Capa de «Nas mãos d’alguém», de Diana Rodrigues

Nas mãos d’alguém

Diana Rodrigues

Um corpo que dá, uma alma que insiste, uma voz que guarda o que quase ninguém vê. São páginas escritas entre cansaços e gestos pequenos, onde tudo o que é frágil se revela. Mais do que histórias, são cicatrizes que encontraram forma.

Capa de «Por este mar», de Nuno Saldanha

Por este mar

Nuno Saldanha

Numa obra que pretende equilibrar a história, a cultura e a emoção, cria-se um poema épico moderno que exalta o espírito lusitano. Uma viagem à identidade portuguesa, resgatando-a e celebrando-a.

Capa de «Plenitude em rompante desenvolvimento», de Martim Évora Campos

Plenitude em rompante desenvolvimento

Martim Évora Campos

Uma obra tempestuosa onde a calma se revolta, e a poesia se constrói. Transcende todos os conceitos de dor e angústia, fazendo com que quem o lê cogite, “Quem sou eu?”. Obra, onde o caminho se constrói, onde a plenitude é a máxima.

Capa de «Do longe e da ferida», de Lino Sebastião

Do longe e da ferida

Lino Sebastião

A poesia está muito para além do versejar. Ela assume-se verdadeiramente quando, no seu dizer e voz sensível, tenta perceber o mundo numa busca em si e no outro e comunicar com eles.

Capa de «Oficina do desassossego», de Bruno Ricardo Nogueira

Oficina do desassossego

Bruno Ricardo Nogueira

Na oficina do verbo,
Refaço as feridas com fios de tinta.
Cada verso é um antídoto
Contra o mundo que nos mentiu!

Capa de «Devaneios», de Ana Paula Silva

Devaneios

Ana Paula Silva

A poesia é a chama de todo um turbilhão de sentimentos, vivências, e, neste corrupio a que chamamos de viver, não há espaço para o verdadeiro sentir de emoções — o sentir a chuva a cair, o raio de sol, o arrepio na pele... Este livro é sobre emoções e o sentir nas suas mil formas...

Capa de «VII: Luz e sombra de mãos dadas», de Sara Terroso

VII: Luz e sombra de mãos dadas

Sara Terroso

Um convite aos que já se perderam, se deixaram consumir pelas chamas, aos que emergiram do fundo do poço e tiveram a coragem de florescer à luz de mil sois.

Capa de «O amor pergunta e a poesia responde», de Bárbara Barbosa

O amor pergunta e a poesia responde

Bárbara Barbosa

Há perguntas que só o amor se atreve a fazer. E respostas que só a poesia ousa dar. Neste livro, entre o silêncio e o verso, talvez encontres a tua própria história.

Entrevista · p. 10–11

Maria
Antunes

Autora de «Uma Ruína de Corvos»

Maria Antunes

Maria Antunes cresceu entre palavras e imagens, construindo desde cedo um universo onde a imaginação e a experiência se entrelaçam. Em «Uma Ruína de Corvos», a escrita torna-se mais densa, mais consciente, atravessada por rutura, transformação e perda. Nesta entrevista, fala do seu percurso, do processo criativo que cruza escrita e desenho, e da construção de um mundo em expansão onde nada permanece intacto.

Começou a escrever ainda em criança e publicou o seu primeiro livro aos dezasseis anos. Em que medida sente que cresceu, como pessoa e como escritora, desde essa primeira publicação até «Uma Ruína de Corvos»?

Comecei a escrever muito cedo, e acredito que a minha escrita sempre partiu das minhas próprias necessidades e vivências. À medida que fui crescendo e ganhando experiência, também a minha escrita se transformou. Para mim, a linha entre a pessoa e a escritora é muito ténue: escrever faz parte de quem sou, e quando eu evoluo, a minha escrita evolui comigo. O meu primeiro livro refletia muito um sonho de juventude, centrado na magia e na amizade. Já «Uma Ruína de Corvos» é diferente: tornou-se uma extensão de mim mesma, daquilo que sentia e de quem me estava a tornar. Houve também uma mudança no meu processo: passei a ler mais, a pesquisar mais, e a desenvolver um maior sentido de método e organização na construção das minhas histórias.

O gesto que desencadeia toda a narrativa, a morte do corvo, liga-se a temas como castigo, magia traiçoeira e consequências irreversíveis. O que queria explorar através dessa escolha narrativa?

Mais do que um simples ponto de partida narrativo, a morte do corvo (e/ou a maldição) funciona como uma analogia para uma rutura irreversível. Quis explorar o impacto de um «acidente» que muda tudo: o momento em que uma parte de Ravena morre com o corvo, alterando para sempre quem ela é. Nesse sentido, representa também o fim da sua inocência. Além disso, esse gesto marca uma transformação profunda, não só individual, mas também relacional. Representa o ponto em que a ligação entre Ravena e Wyllan deixa de ser a mesma, inseparável para distante e fria e, em certa medida, destruída pelas escolhas e pelas consequências das ações de ambos.

No fundo, quis explorar como um único momento, até mesmo um desentendimento, pode redefinir identidades, relações e destinos, e como, por vezes, crescer implica carregar perdas e sacrifícios para nos adaptarmos àquilo em que nos estamos a tornar.

É uma autora que também desenha. Costuma visualizar ou até desenhar personagens e cenários antes ou durante a escrita?

Claro que sim. Acho que qualquer escritor recorre ao tão falado daydreaming, mas, sendo também artista, esse processo torna-se ainda mais visual para mim. Idealizo, naturalmente, as personagens e os ambientes e, na grande maioria das vezes, não consigo evitar desenhá-los, porque é assim que sinto que realmente lhes dou vida. Frequentemente, eu começo por desenhá-los antes mesmo de escrever. Isso ajuda-me a conhecer melhor as minhas próprias personagens, a perceber quem são, como se movem e como ocupam o espaço dentro da história.

Ao longo do processo, continuo a desenhar cenários, roupas e pequenos detalhes: alguns elementos que prefiro ver primeiro no papel antes de os traduzir para palavras. Na verdade, a própria Ravena e a base da narrativa surgiram a partir de um desenho: uma jovem de cabelos escuros, com um olho de cada cor. Foi a partir dessa imagem que tudo começou a ganhar forma. Na minha opinião sincera, o desenho e a escrita complementam-se: um ajuda-me a aprofundar o outro, tornando o mundo da história mais concreto e vivo.

Este livro deixa espaço para continuarmos a explorar este mundo e estas personagens? Podemos esperar mais histórias neste universo?

Este universo, que batizei de Universo Monsarish, ainda está em plena fase de crescimento. Existem já várias histórias dentro dele, interligadas entre si, com mais magia, mais personagens e novas intrigas. Ideias e imaginação não me faltam. Relativamente a «Uma Ruína de Corvos», posso garantir que será o início de uma série de cinco livros. Isso permite-me explorar não só a família Villalobos, mas também todos aqueles que orbitam à sua volta e influenciam o equilíbrio deste mundo.

A história destes irmãos está longe de terminar. Há ainda muitos segredos por revelar, relações por testar e caminhos por cruzar. No fundo, quero construir um universo vivo, em constante expansão, onde cada história acrescenta uma nova camada e aprofunda aquilo que já conhecemos. Aliás, existe um elemento essencial em todos os livros e histórias ainda por contar que acabará por determinar o destino de todo o Universo Monsarish.

Por fim, se tivesse de definir «Uma Ruína de Corvos» numa frase, que frase seria, e porquê?

Numa frase, diria que «Uma Ruína de Corvos» é uma história de medo e de amor, porque são essas as duas forças que movem não só as personagens, mas também a própria narrativa. Escolho esta definição porque acredito que é precisamente nesses momentos, em que sentimos medo, que mais precisamos de criar, de escrever e de dar voz ao que sentimos; e é no amor, na paixão e naquilo que nos prende ao mundo que encontramos força para continuar. Esta história nasceu exatamente disso: do medo e do amor, da frustração e do sonho. A Ravena, tal como «Uma Ruína de Corvos», é isso mesmo: uma personagem atravessada pelo medo, mas profundamente movida pela paixão e pela vontade de resistir a ele.

Capa de «Uma Ruína de Corvos»
«Uma Ruína de Corvos», o primeiro de cinco livros do Universo Monsarish
Rubricas · p. 12

24 de JaneiroDia Mundial daCultura Africana e Afrodescendente

Escrever África é um ato de responsabilidade.

Escrever África não é um gesto neutro. É uma tomada de posição. Enquanto autora angolana, escrevo a partir de uma memória viva, feita de heranças coloniais, deslocações e silêncios prolongados, mas também de criatividade, espiritualidade e capacidade de reinvenção. Cresci a ouvir histórias que não estavam nos livros, contadas em voz baixa, nos gestos do quotidiano, e foi aí que aprendi que a escrita começa, muitas vezes, onde a história oficial termina.

Os escritores africanos contemporâneos assumem hoje um papel central na reconfiguração das narrativas sobre o continente. Durante demasiado tempo, África foi contada a partir de fora, reduzida a imagens incompletas e leituras utilitárias.

A literatura torna-se, assim, um espaço de restituição da palavra, onde múltiplas vozes africanas reclamam o direito de narrar as suas próprias realidades, sem mediações paternalistas nem simplificações confortáveis.

Acredito que a literatura constitui uma forma profunda de resistência cultural e epistemológica. Resistir, neste contexto, não é apenas denunciar, mas preservar a memória, questionar versões únicas da história e recusar a redução das identidades africanas a categorias fixas. Escrever é criar continuidade entre passado, presente e futuro; entre o que foi silenciado e o que insiste em ser nomeado.

Quando escrevo, não imagino uma África idealizada. Imagino uma África possível: consciente das suas feridas coloniais e pós-coloniais, sem permitir que essas feridas definam de forma absoluta o seu presente ou o seu horizonte. A literatura oferece um espaço de elaboração crítica do passado e de projeção de futuros que não repitam as mesmas ausências.

A responsabilidade ética do escritor africano reside na capacidade de nomear a realidade com rigor e sem concessões, nomear a violência simbólica e as desigualdades persistentes, mas também reconhecer a força cultural, criativa e espiritual dos povos africanos. Escrever é recusar o silêncio confortável e assumir que a palavra tem consequências.

Celebrar o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente é reconhecer que a cultura africana não pertence ao passado nem a um espaço periférico. Ela escreve-se no presente, dentro e fora do continente, e interpela quem lê, exigindo escuta, deslocação e responsabilidade.

Rosária Celestino
Capa de «O Milagre da Fertilidade», de Rosária Celestino

Rosária CelestinoAutora do livro O Milagre da Fertilidade

Rubricas · p. 13

O que é para as crianças oVerão?

O verão é...

  • Brincar na praiaOlivia, 6 anos
  • Comer GeladosNúria, 7 anos
  • Piscina e praia!Madalena, 4 anos
  • Tem muito calor e é a minha estação favoritaMadalena, 5 anos
  • Calor!Sol, 6 anos
  • Uma época com calor em que dá para ir para a praia!Mara, 7 anos
  • Sol!Camila, 4 anos
  • Muito Calorento!Tiago, 5 anos
  • Tem muitas maçãs, gelados e há muita relva verde para brincar na rua!Joaquim, 5 anos
  • Calor, ir à praia com a mamã e o papá!Marina, 6 anos
Livros em destaque · p. 14–15

Areia, baldes
e livros

Desafio de Leão

Filipa Alves

Um pequeno Leão procura as peças de um puzzle que lhe darão acesso à fórmula mágica para crescer de forma saudável: a alimentação, a atividade física, o sono, a higiene... e o amor! Preparado para ajudar o pequeno Leão neste grande desafio?

Capa de «Desafio de Leão», de Filipa Alves +1000unidades vendidas
Capa de «Sou Poesia», de Marisa Francisco

Sou Poesia

Marisa Francisco

É um livro de poesia infantil único e especial, onde a Magia entre vários Mundos acontece nos corações dos mais pequenos!

Capa de «Um dia na praia», de Remizio Júnior

Um dia na praia

Remizio Júnior

Em Um Dia na Praia, uma menina e o seu pai exploram juntos os mistérios da vida marinha numa jornada de curiosidade e descobertas. Com perguntas reais e respostas simples, este livro ilustrado traz a beleza do oceano para crianças e adultos!

Capa de «Pilar, a gaivota que não sabia voar», de Leandro Duarte

Pilar, a gaivota que não sabia voar

Leandro Duarte

Pilar sempre acreditou ser uma galinha, até que descobriu que tinha asas prontas para voar. Criada com amor, mas cheia de dúvidas sobre si mesma, ela embarca numa jornada de descoberta, identidade e coragem. Uma história sensível sobre pertencer, crescer e voar. Mesmo quando o coração ainda não quer.

Capa de «A ourives do mar», de Lurdes Leite

A ourives do mar

Lurdes Leite

Esta história é tão incrível que desejarás conhecer a gaivota Ty e seres um verdadeiro amigo(a), pronto a ajudar. É importante proteger o ambiente e manter as praias limpas. Será que a gaivota é a ourives do Mar e vai conseguir salvar o Oceano? Queres viajar com a ourives do Mar?

Capa de «O arbusto que queria tocar no céu», de Iolanda Couto

O arbusto que queria tocar no céu

Iolanda Couto

Arbi é um corajoso arbusto que vai demonstrar como crescer pode ser desafiante, mas, ao mesmo tempo, tão enriquecedor. De olhos postos no céu, conta com a ajuda dos seus amigos para tentar realizar o sonho de lhe tocar.

Capa de «O avô que foi ver as gaivotas e aprendeu a voar», de Ana Salazar Reis

O avô que foi ver as gaivotas e aprendeu a voar

Ana Salazar Reis

Esta é uma história de Amor. A obra fala-nos de um avô. Mas não é um avô qualquer, não! É um avô que voará eternamente no céu do nosso olhar.

Capa de «Tágides, as filhas do Tejo», de Mia Pessoa

Tágides, as filhas do Tejo

Mia Pessoa

As irmãs Tágides, guardiãs mágicas do Tejo, embarcam numa aventura pelo oceano para proteger os navegadores portugueses. Juntas, enfrentam desafios, enquanto ajudam secretamente, os marinheiros na sua jornada. Uma maneira leve de introduzir Os Lusíadas aos mais pequenos.

Capa de «O tesouro», de Carla Cardoso

O tesouro

Carla Cardoso

E se de um dia para o outro descobrir os maiores tesouros do Mundo!? Se decifrar o segredo e a magia da vida!? João, um menino como tu, vive essa descoberta e deixa-se surpreender pela beleza e simplicidade de todas as pequenas grandes coisas que nos rodeiam!

Capa de «História de uma flor», de João Bota

História de uma flor

João Bota

Uma flor nasce no meio de um campo cheio de ervas daninhas e, ao início, não sabe bem quem é. Mas, com o tempo e com a ajuda de novos amigos, embarca numa jornada para descobrir a sua verdadeira natureza. Será que vai conseguir descobrir quem é?

Entrevista · p. 16–17

Sabrina
Christiane

Em Prisioneira da Minha Própria Mente, a autora transforma a fragilidade em linguagem e a sobrevivência em presença, num testemunho cru sobre dor psíquica, internamentos, escrita e esperança. Nesta entrevista, fala do fio invisível que a manteve viva quando existir parecia insuportável e da coragem silenciosa que é escolher ficar, ainda que por mais um dia.

Sabrina Christiane
No livro, descreve momentos em que a morte parecia mais confortável do que continuar. Qual foi o fio invisível que a prendeu à vida quando tudo parecia perdido?

Houve momentos em que viver doía mais do que a ideia de desaparecer. Não porque eu quisesse morrer, mas porque estava exausta de existir em dor constante.

O fio invisível que me prendeu à vida nunca foi algo grandioso ou heroico. Foi frágil. Quase impercetível.

Foi o amor silencioso dos meus pais e das minhas irmãs, mesmo quando eu não conseguia senti-lo. Foi a memória de um abraço. Foi a escrita, as palavras como único lugar onde ainda conseguia respirar. E, sobretudo, foi uma pequena parte de mim que, apesar de tudo, ainda queria acreditar que a dor não seria eterna.

Esse fio não me salvou de um dia para o outro. Apenas me impediu de desistir por completo. E, às vezes, ficar já é um ato profundo de coragem.

Escreve que “sobreviver não é viver”. Quando é que percebeu que queria mais do que sobreviver — e como começou a transformar essa vontade em ação?

Percebi que sobreviver já não era suficiente quando entendi que continuar a respirar, por si só, não me estava a salvar. Apenas me mantinha em pé. Havia dias em que fazia tudo “certo”, mas por dentro sentia-me ausente, desligada de mim e do mundo. Foi aí que a pergunta mudou. Já não era “como aguentar mais um dia?”, mas sim “é só isto que a vida pode ser?”.

Essa vontade de viver não surgiu de forma repentina. Começou pequena, quase tímida. Começou quando passei a escutar-me com mais honestidade, quando deixei de fingir que estava bem, quando reconheci que merecia mais do que existir em modo automático. Transformou-se em ação nos gestos simples: escrever, pedir ajuda, aceitar o tempo do processo, permitir-me cair sem desistir de mim.

Viver, para mim, não começou com felicidade plena, mas com presença. Com a decisão diária de ficar, de me escolher, mesmo nos dias em que a dor ainda falava alto. Foi assim, passo a passo, que deixei de apenas sobreviver e comecei, devagar, a voltar a mim.

Há capítulos em que fala da solidão dentro de hospitais psiquiátricos e da falta de empatia. Que impacto teve essa experiência na sua visão sobre os cuidados de saúde mental?

A experiência nos hospitais psiquiátricos mudou profundamente a forma como vejo os cuidados de saúde mental. Entrei nesses espaços à procura de ajuda, mas muitas vezes senti-me reduzida a um diagnóstico, a um número, a um caso clínico. A solidão que vivi ali não vinha apenas do isolamento físico, mas da falta de escuta verdadeira e de empatia humana.

Percebi que tratar a saúde mental não pode resumir-se a medicação, regras ou protocolos.

Pessoas em sofrimento precisam, antes de tudo, de ser vistas como pessoas. Precisam de presença, de palavras cuidadas, de um olhar que não julgue. A ausência disso pode agravar a dor em vez de a aliviar.

Essa vivência tornou-me mais consciente da urgência de humanizar os cuidados de saúde mental. Fez-me entender que a recuperação não depende apenas de tratamentos clínicos, mas também da forma como somos acolhidos quando estamos mais frágeis. Hoje acredito que empatia não é um complemento do cuidado. É parte essencial dele.

Hoje, depois de tantas quedas e pequenas vitórias, como define “esperança”? É uma certeza, um desejo ou apenas um sussurro que a faz continuar?

Hoje, a esperança não é uma certeza plena. Também não é apenas um desejo distante. Para mim, a esperança é um sussurro. Discreto, persistente, quase invisível, mas presente. É aquilo que me faz continuar mesmo quando ainda há dias difíceis, mesmo quando a dor volta a falar mais alto.

Durante muito tempo achei que esperança era sentir-me bem, acreditar sem medo, ter confiança no amanhã. Hoje sei que não é isso. A esperança mora nos gestos pequenos. Em ficar mais um dia. Em respirar fundo quando tudo pesa. Em acreditar que, mesmo sem ver o caminho inteiro, dar um passo já é suficiente.

A esperança não me promete que tudo vai ser fácil. Mas lembra-me que a dor não anula a possibilidade de vida. E, por enquanto, esse sussurro basta. É ele que me mantém aqui, a caminhar, devagar, mas em frente.

Escreve que este livro foi “uma das decisões mais difíceis e mais libertadoras”. Que medos teve de enfrentar para transformar dor em palavras — e que descobertas fez sobre si mesma durante esse processo?

Para transformar a dor em palavras, tive de enfrentar muitos medos. O medo de ser julgada, de ser mal interpretada, de expor feridas que durante anos tentei esconder. Tive medo de reviver momentos que ainda doíam, de voltar a lugares internos onde quase me perdi. E tive, sobretudo, medo de ser vista por inteiro, sem filtros, sem defesas.

Escrever obrigou-me a parar de fugir de mim. A olhar para a minha história com verdade, sem romantizar a dor, mas também sem a minimizar. Nesse processo, descobri que era mais forte do que pensava, não por ter superado tudo, mas por ter sobrevivido e continuado a sentir. Descobri que a vulnerabilidade não me diminuía, tornava-me humana.

Percebi também que a escrita podia ser um lugar de cura. Um espaço onde a dor deixava de ser apenas peso e passava a ter sentido. Ao dar-lhe palavras, deixei de carregá-la sozinha. E talvez a maior descoberta tenha sido essa: ao contar a minha história, não me fragilizei. Libertei-me.

Se pudesse escolher uma frase do livro para definir a sua jornada — e a essência desta obra —, qual seria e porquê?

Se pudesse escolher uma frase do livro para definir a minha jornada e a essência desta obra, seria:

“Ainda estou aqui. E isso é tudo.”

Porque, depois de tantas quedas, tentativas e silêncios, estar aqui já é uma conquista. Esta frase não fala de finais perfeitos, mas da permanência, da escolha diária de continuar, mesmo quando nem tudo está resolvido.

Capa de «Prisioneira da Minha Própria Mente», de Sabrina Christiane
«Prisioneira da Minha Própria Mente», o testemunho de Sabrina Christiane
Livros em destaque · p. 18

Uma pausa na ficção

Capa de «Máquina do tempo», de Catarina Nadais

Máquina do tempo

Catarina Nadais

Escritas com a urgência de quem quer recordar o que o mundo insiste em fazer esquecer, estas crónicas honram a dor como ponto de costura e a escrita como ritual de permanência.

Capa de «Ainda há beleza», de Clara Luz

Ainda há beleza

Clara Luz

Este livro é um abraço para quem já não encontra saída. Histórias reais e caminhos de cura revelam que, mesmo no escuro, ainda pode nascer luz.

Capa de «Mindful living by Cláudia», de Cláudia Moniz

Mindful living by Cláudia

Cláudia Moniz

Durante anos procurei equilíbrio nas coisas erradas — até que descobri que a harmonia que procurava fora, começava dentro de mim e do meu espaço físico. Um guia prático, onde partilho ferramentas que mudaram a minha vida... Talvez mude a tua também.

Capa de «Espelho, espelho meu: Quem realmente sou eu?», de Joana André

Espelho, espelho meu: Quem realmente sou eu?

Joana André

Alguma vez olhaste ao espelho e não te reconheceste? Quantas vezes já olhaste para o espelho e quiseste ser outra pessoa? Este livro é teu, tu que carregas feridas que ninguém vê e precisa de se curar.

Capa de «Desligar para desconectar: Guia para pais», de Cristiana Pires

Desligar para desconectar: Guia para pais

Cristiana Pires

Um guia essencial para pais que querem proteger as crianças num mundo dominado pelos ecrãs. Com estratégias, atividades e rotinas, ajuda a prevenir consequências graves de atraso no desenvolvimento e a promover tempo, criatividade e conexão, tendo em vista uma infância saudável.

Capa de «Além do modo sobreviver», de Liane Costa

Além do modo sobreviver

Liane Costa

Uma vida marcada pela luta pela sobrevivência transformou-se num caminho de coragem, desapego e construção de legado. Este livro mostra como é possível quebrar ciclos e criar a vida com que sempre sonhámos.

Capa de «Torna-te invencível nas dificuldades», de Catarina Osório

Torna-te invencível nas dificuldades

Catarina Osório

Descobre como transformar desafios em força, e dúvidas em clareza. Este livro é um guia prático para ganhares confiança, melhorares a tua vida, e alcançares o bem-estar que mereces.

Capa de «Descobrir as tecnologias de informação», de Tiago Nascimento

Descobrir as tecnologias de informação

Tiago Nascimento

Os Sistemas e as Tecnologias da Informação são cada vez mais necessários para o sucesso pessoal e profissional. Está preparado para transformar o conhecimento e impulsionar a inovação tecnológica?

Livros em destaque · p. 19

Livros que cheiram aVerão

Capa de «Alquimia de um coração», de Miriam Massano Jesus

Alquimia de um coração

Miriam Massano Jesus

Cada poema deste livro é um espelho de emoções, um refúgio para quem amou, perdeu e renasceu. Se procura versos que toquem a alma, este livro é para si.

Capa de «Por Entre os Planaltos Centrais», de Maria da Candelária

Por Entre os Planaltos Centrais

Maria da Candelária

Dois amigos reencontram-se após meio século separados. Embarcam numa jornada de cura e transformação pelos Planaltos Centrais, onde a amizade e a resiliência os fortalecem. Um ano e meio depois, um deles, parte para a eternidade.

Capa de «Poesia Efémera», de Nuno Pinto

Poesia Efémera

Nuno Pinto

A obra aborda do melhor ao pior da sociedade em convulsão, este livro é dedicado a todos os leitores que queiram adquirir uma utopia literária com novos tópicos.

Capa de «Ecos de uma Alma Perdida», de Sara Pinto Mendonça

Ecos de uma Alma Perdida

Sara Pinto Mendonça

Uma Alma escreve para não desaparecer. Entre amor, dor e silêncio, cada palavra é uma ferida — mas nem todas cicatrizam...

Capa de «Luminâncias entre Natureza, Cultura e Arte», de Rosário Santana e Helena Santana

Luminâncias entre Natureza, Cultura e Arte

Rosário Santana e Helena Santana

Indagando o património histórico e cultural do nosso país, a partir dos elementos narrados ao longo do edificado, alcançamos um manancial de possibilidades que nos desperta não só a curiosidade, como as emoções e a mente.

Capa de «Estações em Chamas», de Daniela Martinho

Estações em Chamas

Daniela Martinho

Mergulhe numa viagem poética intensa de um amor avassalador e das suas múltiplas fases, explorando a fragilidade dos laços e a turbulência do desejo. Cada poema é uma estação que arde em sentimentos profundos.

Capa de «Meditação Irreverente», de Lino Sebastião

Meditação Irreverente

Lino Sebastião

Nós, humanos. Repositórios de virtudes e de defeitos. Prontos para o gesto sublime e a crua maldade. Sempre cheios de curiosidade e desejo de experimentação.

Capa de «Faísca no Escuro», de Miriam Ceres

Faísca no Escuro

Miriam Ceres

O que habita a escuridão? Quais são as formas, silêncios e ruídos que lhe dão corpo? Os poemas rompem-na com uma faísca de transparência, ar e liberdade e só depois pisam o chão para se multiplicarem em teias finíssimas de todas as cores.

Entrevista · p. 20–21

EntrevistaLara Afonso

Lara Afonso no palco da Gala dos Autores, de vestido brilhante, com o guião da gala na mão
Lara Afonso, a apresentadora da Gala dos Autores

Lara Afonso vive o palco como um espaço de encontro — entre vozes, emoções e histórias que ganham vida diante de um público atento. Constrói uma relação próxima com quem a escuta, movida pela autenticidade e pelo prazer de comunicar. Nesta entrevista, fala do que a move, da partilha em palco e da forma como transforma cada momento numa verdadeira experiência.

Já apresentas a Gala dos Autores há vários anos e, recentemente, partilhaste o palco com o Carlos Félix. Como descreves essa experiência e o que significa para ti esta ligação continuada a um evento tão importante do mundo literário?

Sinto um orgulho imenso de fazer parte desta festa que exalta o trabalho e os sonhos de todos os envolvidos! Da equipa da Cordel D' Prata e Meialonga, que sonhou cada detalhe e dos autores que sonharam editar os seus livros! É uma festa onde o sonho tem lugar cativo e a magia acontece quase naturalmente! Uma honra poder fazer parte de tudo isto! Este ano ainda foi melhor, porque partilhei o palco com alguém que se enquadra na perfeição no tanto que a gala representa! Para além do talento imenso e vontade de fazer mais e melhor do maravilhoso Carlos! Amei! O amor, os sonhos, a vida, só faz sentido se a partilharmos com os bons!

Quais são, para ti, os maiores desafios — e também as maiores vantagens — de conduzir esta Gala ao lado do Carlos Félix?

No fundo foi o que disse anteriormente! E mais! Com o Carlos fiz em palco as duas coisas que mais gosto! Apresentar e cantar! Acho que juntos conseguimos criar uma magia muito própria numa noite que se quer mágica e diferente de tudo o que estamos habituados a ver! Ambos cantamos, ambos comunicamos com o coração! Acho que a Cordel D' Prata descobriu uma dupla bem bonita!

Antes de subir ao palco, tens algum ritual ou hábito que mantenhas ao longo dos anos?

Estar feliz! Confiar na equipa que está ali para tudo! Que pensa em cada detalhe! Respiro fundo, absorvo a energia de todos que é sempre maravilhosa, e vou para o palco com o coração no sítio certo!

Se tivesses de abrir a Gala dos Autores com uma frase retirada de um livro qual escolherias e porquê?

Talvez não seja de um livro, mas faz parte de todos eles! «Todos nós temos uma história» E a gala dos autores é um palco de tantas histórias de todos os que as sonharam, escreveram e partilharam-na com o mundo!

Quanto à nossa rubrica das entrevistas de 1 minuto, o que mais te desafia neste formato tão curto e intenso, e o que achas que ele acrescenta à forma como o público conhece os autores?

Conhecer de perto um autor é um privilégio! E há tanto que se conhece num minuto apenas…o olhar de cada um, a história que está para lá das linhas que escreveram e o sonho de levar cada livro mais além! Basta um minuto, para sabermos que vale a pena ganhar tempo para nos levar a ler um livro! em mim fica sempre a vontade de conhecer mais! E isso, é a magia deste formato!

O ano da casa · p. 22

Jornadas da
Poesia

4ª Edição

As Jornadas da Poesia de 2026 decorreram no Dia Mundial da Poesia, a 21 de março. No Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Lisboa, reuniram-se centenas de poetas para comemorar esta data tão importante.

Manuel Cabaço, de fato e gravata vermelha, com o guião das Jornadas na mão
Manuel Cabaço, o apresentador

Apresentado por Manuel Cabaço, uma cara reconhecida na Cordel D' Prata, o evento teve uma duração de três horas e contou com muita partilha, aplausos, risos, lágrimas e, claro, muita poesia.

Entre os vários momentos marcantes, destacamos a leitura do poema de Leonor Botelho, «Dia Mundial da Paz e da Violência Infantil», que, apesar dos seus 11 anos, participa pela segunda vez nas Jornadas e comoveu toda uma plateia que se levantou para a aplaudir.

A autora Ana Catarina Rodrigues assinou o seu contrato durante a celebração deste ano. Poetisa, aventura-se agora no género do romance, e num discurso emocionante levou a poesia e mais ao palco.

Os poemas declamados nas Jornadas foram reunidos no segundo volume da coletânea «Todo o Sal do Mar», apresentado na mesma data. Este tomo surge como uma continuação ao dar voz a uma identidade nacional e de conectar poetas que partilham o amor pela liberdade e beleza de que é feita a poesia.

A plateia do Auditório Municipal Ruy de Carvalho, cheia de poetas
Centenas de poetas no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Lisboa
Um poeta declama ao púlpito das Jornadas da Poesia
Ao púlpito
Capa de «Todo o Sal do Mar», volume 2
«Todo o Sal do Mar», o segundo volume da coletânea
Duas pessoas ao púlpito das Jornadas da Poesia, uma delas a ler
Leituras ao púlpito das Jornadas
Entrevista · p. 24–25

Catarina Silva

fnac

Responsável de Comunicação Institucional e Cultural da FNAC Portugal

Catarina Silva trabalha no cruzamento entre cultura, comunicação e encontro. A partir da FNAC, pensa o livro não apenas como objeto, mas como experiência viva, feita de proximidade, escuta e partilha. Num contexto onde novos autores procuram espaço e leitores atentos, o seu trabalho passa por criar pontes e dar visibilidade a vozes emergentes. Nesta entrevista, reflete sobre o lugar da literatura hoje, os desafios da mediação cultural e a importância de criar tempo e espaço para que as histórias encontrem quem as lê.

Como descreveria a parceria entre a FNAC e a Cordel D' Prata no que diz respeito à promoção de novos autores?

A parceria entre a FNAC e a Cordel D' Prata tem sido construída a partir de uma visão partilhada sobre a importância de criar espaço, contexto e tempo para os novos autores encontrarem os seus leitores. Ao longo dos últimos anos, esta colaboração traduziu-se em apresentações, conversas e encontros regulares nas nossas lojas, que permitem não só dar visibilidade às obras, mas também humanizar o ato de escrever e publicar. Para a FNAC, é particularmente relevante trabalhar com projetos editoriais independentes que apostam em novas vozes e em propostas literárias diferenciadoras. Esta relação de proximidade tem permitido acompanhar o percurso dos autores, potenciar o seu crescimento e contribuir para a criação de uma comunidade de leitores mais atenta e curiosa.

A FNAC é conhecida por ser um dos principais promotores culturais em Portugal. Qual é a visão da empresa relativamente ao incentivo à leitura e ao apoio a novos talentos?

A FNAC assume a cultura como um pilar central da sua identidade e da sua missão em Portugal. Incentivar a leitura e apoiar novos talentos não é apenas uma estratégia cultural, mas um compromisso estrutural com a criação, o pensamento crítico e a diversidade de vozes. Acreditamos que os novos autores são essenciais para a renovação do panorama literário e que o nosso papel passa por criar plataformas de visibilidade, contacto direto com o público e reconhecimento do seu trabalho. As lojas FNAC funcionam como espaços vivos de encontro cultural, onde a literatura é celebrada não apenas enquanto produto, mas enquanto experiência, diálogo e partilha.

Quais são os maiores desafios na organização de eventos literários nas lojas FNAC?

Um dos principais desafios é conciliar a diversidade de propostas culturais com a grande dinâmica das lojas, que são simultaneamente espaços comerciais muito ativos e espaços culturais abertos à comunidade. É fundamental garantir que os eventos literários têm condições de escuta, proximidade e qualidade, respeitando o contexto da loja e o público que a frequenta. Outro desafio passa pela curadoria das nossas equipas: selecionar projetos relevantes, representativos da diversidade literária atual, e encontrar o formato mais adequado a cada autor e a cada obra. Apesar destes desafios, penso que é precisamente esta complexidade que torna os eventos nas lojas FNAC tão estimulantes e próximos do público.

Como é definido o plano anual de eventos literários dentro da FNAC?

O plano anual de eventos literários da FNAC resulta de um trabalho contínuo de curadoria de uma equipa de pessoas que se dedica a este tema. Há uma escuta e articulação constante com editoras, autores, parceiros culturais e equipas de loja. Existe uma linha estratégica comum, alinhada com a missão cultural da marca, mas também uma grande abertura à especificidade de cada loja e ao seu contexto local. Ao longo do ano, o planeamento mantém-se flexível, permitindo integrar lançamentos relevantes, descobrir novos projetos editoriais e responder à atualidade cultural. Esta combinação entre visão estratégica e adaptação constante é fundamental para garantir que mantemos uma programação viva e coerente.

Qual é, para si, a chave para um evento de apresentação bem-sucedido?

A meu ver, até como consumidora deste tipo de eventos, a chave para um evento literário bem-sucedido está na autenticidade e na relação criada entre o autor, a obra e o público. Mais do que uma apresentação formal, valorizamos a experiência: momentos de conversa, escuta e partilha, onde o autor se sente próximo dos leitores e o livro ganha contexto e significado para quem assiste. Um bom evento é aquele que cria memória: para quem participa, para o autor e para o espaço que o acolhe. Quando existe proximidade, qualidade na mediação e verdadeiro interesse em torno da obra, o sucesso acontece de forma natural.

Leitores reunidos numa loja FNAC durante uma apresentação
Apresentação de um autor da casa numa loja FNAC
Conversa com o autor diante do público
A mesa dos livros preparada para a sessão
Os livros à espera dos leitores
Rubricas · p. 26

Que destino
literárioescolheria para
passar férias?

Se os livros nos permitem viajar sem sair do lugar, para onde escolheriam ir aqueles que os escrevem?

João Couto

autor de O viajante, o livro que deus parou para ler e O Império dos Esquecidos

Escolheria passar férias na enigmática cidade sem nome de «A Jangada de Pedra», de José Saramago, onde a Península Ibérica se solta e navega pelo oceano como um território reinventado. Levaria comigo «Memorial do Convento», para me perder entre história e imaginação enquanto o mundo se desloca sob os pés.

Seria uma viagem entre o absurdo e o poético, num lugar que só a literatura poderia criar.

Capa de «Memorial do Convento», de José Saramago
Capa de «A Jangada de Pedra», de José Saramago
João Couto

M. M. Silva

autora de A Herdeira Amaldiçoada

«Coraline», onde o encanto apodrece por dentro.
Levaria Coraline como guia entre sombras.
Com os feitiços de Agnes, atravessaria o que não devia existir.

Capa de «Coraline», de Neil Gaiman
M. M. Silva

Horácio Pinto

autor de Os Guerreiros das Pedras Universais

O destino que eu escolheria para passar férias seria talvez um pouco ambicioso... Eu criaria um mundo que juntasse alguns dos temas que mais me interesso dentro de algumas referências. Talvez, um continente cheio de Pokémons e Fantastic Beasts, rodeados pela Grand Line com ilhas cheias de Akuma no Mi. Eu iria para o centro desse continente numa pequena casa na Montanha Paozu.

O livro que eu levaria comigo seria sem dúvida «Os Guerreiros das Pedras Universais». Levava também uma caneta e um caderno para continuar a sonhar.

Capa de «Os Guerreiros das Pedras Universais», de Horácio Pinto
Horácio Pinto
Rubricas · p. 29

1 anode Meialonga!

  • Número de livros e autores publicados+250livros publicados
  • Eventos realizadosPresença em8Feiras do Livro!
  • Seguidores nas redesMais de4 milseguidores!
  • Rubricas feitas
A banca da Meialonga numa feira do livro, com sacos amarelos, marcadores e brindes
A banca da Meialonga
Uma menina conversa com uma autora na banca da Meialonga, numa feira do livro ao ar livre
Nas feiras do livro
O perfil de Instagram meialongapt: 801 publicações, 4 438 seguidores
@meialonga.pt
Rubrica «Vamos Aprender», com Jéssica Duarte: Dias Festivos. 1262 visualizações
«Vamos Aprender», com Jéssica Duarte
Rubrica «Hora de Deitar», com Carlos Felix: Os Desportos. 1067 visualizações
«Hora de Deitar», com Carlos Felix
Rubrica «As crianças recomendam», com Pequenos Leitores: 4 razões para leres. 2307 visualizações
«As crianças recomendam», com Pequenos Leitores
Rubrica «O autor recomenda», com Os nossos autores: Desafio de Leão. 2868 visualizações
«O autor recomenda», com Os nossos autores
Entrevista · p. 30–31
Tiago Baptista à secretária, no escritório de Lisboa da Cordel D' Prata
LisboaTiago Baptista
Jéssica Ferreira à secretária, no escritório do Porto da Cordel D' Prata
PortoJéssica Ferreira

Grandes Autores

O que faz um
original
destacar-se?

Do manuscrito ao livro existe um espaço de escuta, decisão e acompanhamento onde o talento é trabalhado e orientado. Tiago Baptista e Jéssica Ferreira, nesta entrevista, refletem sobre o que procuram em quem escreve, os desafios do processo editorial e a importância de criar relações que vão muito além da publicação.

O que procuram num autor além da escrita?

JF Além da qualidade da escrita, procuro autores disponíveis para construir uma relação de confiança com a editora. Para mim, é muito importante encontrar autores para dialogar, ouvir e construir uma relação de confiança.

TB Procuro um autor que seja verdadeiramente apaixonado pelo que criou. Adoro receber autores que queiram compreender todo o processo editorial, que façam perguntas e que demonstrem um entusiasmo real em caminhar e crescer ao lado da nossa editora.

Como acompanham os autores após a publicação?

JF O meu trabalho começa muito antes do contrato, mas não termina quando o livro é publicado. Depois da publicação, continuo atenta ao percurso da obra, às oportunidades de divulgação, às apresentações, às feiras e ao modo como o autor se sente nesta nova etapa.

TB Na nossa editora, editar um livro é um verdadeiro trabalho de equipa. No entanto, o nosso papel não termina com o lançamento: após a publicação, é fundamental manter o contacto e reforçar esta relação de proximidade, trabalhando em conjunto para levar as obras até aos leitores.

Que impacto sente que a Cordel D' Prata tem nos autores portugueses?

JF Na minha opinião, a Cordel D' Prata tem tido um papel muito importante dando oportunidade a vozes que, muitas vezes, procuram a sua primeira experiência editorial. Mais do que publicar livros, procuramos ajudar autores a ganhar confiança no seu percurso, a compreender melhor o mercado editorial e a sentir que a sua voz tem lugar.

TB Uma vez, uma autora disse-me que nós democratizámos a edição em Portugal, e eu não podia estar mais de acordo. A Cordel D' Prata é, muitas vezes, a primeira grande oportunidade que os autores têm de mostrar as suas obras ao mundo. Sentimos que temos um impacto profundamente positivo ao abrir portas que antes pareciam fechadas.

Há algum erro muito comum que afaste logo uma obra de uma possível aprovação?

JF Um dos erros mais comuns é o envio de obras ainda pouco trabalhadas, por exemplo, o texto ainda não demonstrar maturidade narrativa ou quando existe uma ideia interessante, mas pouco desenvolvida.

TB Para nós, é crucial que o enredo e as personagens sejam desenvolvidas com a capacidade de cativar o leitor do início ao fim. Quando o manuscrito é muito reduzido, o potencial daquela ideia pode não ser totalmente aproveitado, o que torna difícil a sua viabilização no formato de livro que ambicionamos oferecer ao público.

Que conselho dariam a alguém que está a enviar o seu primeiro manuscrito para uma editora?

JF O principal conselho é: envie a obra com cuidado, mas sem medo. Antes de submeter, releia e organize o original. E, acima de tudo, tenha abertura para ouvir uma avaliação editorial. Publicar é também aceitar que o livro pode crescer com o olhar de outras pessoas.

TB O meu maior conselho é: escreve a tua verdade, aquilo que sentes e com o teu coração. Não tenhas medo de arriscar nem de mostrar a tua voz única. Quando o manuscrito carrega essa paixão genuína, nós, do lado de cá, sentimos isso logo na primeira página.

O que mais gostam de fazer na vossa profissão?

JF Gosto de perceber quem está por trás da obra, de acompanhar as dúvidas, o entusiasmo, os receios e a alegria de ver o livro ganhar forma. Essa relação humana é, para mim, uma das partes mais bonitas da profissão.

TB É gratificante acompanhar autores que amam o que fazem e ver a sua paixão impressa em cada página. Fazer parte da concretização de um objetivo de vida e ver esse livro chegar aos leitores é o que dá sentido ao meu trabalho todos os dias.

Há alguma personagem, frase ou cena de um original recebido que nunca mais tenham esquecido?

JF Era um livro centrado na morte de um dos elementos de uma família, e a forma como esse luto era tratado tocou-me profundamente. Na altura, eu própria estava numa fase muito sensível da minha vida, grávida, e talvez por isso a leitura tenha tido um impacto ainda maior.

TB Houve um original que me marcou bastante, escrito por uma autora que partilhava o seu processo de cura de um cancro. O que mais me impressionou não foi a descrição da vertente difícil da doença, mas sim a forma como foi escrito: focava-se na superação e na certeza de que a vida não acabava ali. Mais tarde, tive o privilégio de a conhecer pessoalmente e foi inspirador ver como todo aquele processo a tornou ainda mais forte.

Tiago Baptista a ler um original, com as folhas espalhadas na secretária
Tiago Baptista, a ler um original
Rubricas · p. 32–33

Citações
dos nossos
livros

«Da mesma forma que uma palavra errada tem força para gerar uma catástrofe, a palavra certa tem potência para ser muito poderosa e forte no interior das pessoas.»

— As Crónicas de Goldmundo, João Talefe
Capa de «As Crónicas de Goldmundo», de João Talefe

«Valorizar a natureza é estarmos em contacto com ela, e deste modo regermo-nos pela sua sabedoria.»

— O Coração de um cavalo: Um presente do mundo dos unicórnios, Joana Pereira
Capa de «O Coração de um cavalo: Um presente do mundo dos unicórnios», de Joana Pereira

«Não assiste ao Estado ensinar ao povo como deve ser livre.»

— Leviatã, Luís Bencatel
Capa de «Leviatã», de Luís Bencatel

«O que começa em fogo tende a acabar em cinza».

— Prometo-te o Tempo, Cristina Cruz Ferreira
Capa de «Prometo-te o Tempo», de Cristina Cruz Ferreira

«Escutasses tu o que te vai dentro e conquistarias o mundo. Pudesses tu livrar-te dessas amarras e saberias que voar não tem preço e que a liberdade é a tua condição à nascença. Espera. Agora que sabes, o que fazes com tudo isso?»

— Máquina do tempo, Catarina Nadais
Capa de «Máquina do tempo», de Catarina Nadais

«A maioria das coisas no mundo são ao contrário. Os edifícios que os homens constroem são de pedra e não de pensamento. E esses, sim, é que seriam os verdadeiros edifícios que nos poderiam fazer sair das trevas e da ganância em que vivemos.»

— In Nomine Caesar, José Henrique Santos
Capa de «In Nomine Caesar», de José Henrique Santos
Entrevista · p. 34–35

Sónia Teixeira

Em Viver nos Limites, Sónia Teixeira escreve a partir da margem onde a dor e a lucidez coexistem.
Num relato cru sobre a doença borderline, a autora atravessa abandono, violência, fé e maternidade, transformando experiência pessoal em palavra partilhada. Nesta entrevista, fala do momento em que escolheu ficar, do peso e da aceitação do diagnóstico, e da escrita como gesto de sobrevivência — e de verdade.

Sónia Teixeira, ao ar livre, entre folhas de palmeira
Capa de «Viver nos Limites», de Sónia Teixeira
«Viver nos Limites»
O seu livro descreve momentos de dor extrema, incluindo duas tentativas de suicídio. Quando olha para esses episódios hoje, qual foi o ponto de viragem que a fez escolher a vida e iniciar o caminho da recuperação?

Sim, infelizmente a dor é uma coisa com que tive de aprender a conviver, os impulsos estão controlados com ajuda de medicação também. O momento chave que me fez entender que não podia voltar a fazer o mesmo foi o dia nas urgências. Sozinha, altamente medicada, abandonada à minha sorte, porque os enfermeiros não são empáticos para quem tenta o suicídio, muito pelo contrário. Tive muitas horas para me lembrar da cara dos meus filhos, do pavor que senti no olhar da minha menina, enquanto segurava o telemóvel com uma mão e com a outra me confortava, tentando fazer-me vomitar os medicamentos, com uma colher na garganta. Quando saí, tinha a certeza de que não podia voltar a fazer-lhes o mesmo! Os meus filhos não mereciam passar por aquilo. Ainda hoje é um arrependimento grande que tenho, ter-lhes deixado essa ferida tão grande!

A infância e adolescência que relata foram marcadas por abandono e violência. Como é que essas experiências moldaram a sua identidade e contribuíram para os desafios que enfrentou mais tarde?

Eu tive de crescer rápido, saltei muitas etapas de vida, fui cuidadora muito cedo, e o amor foi a única coisa que nunca esteve presente na minha infância. Então eu, como todas as crianças, observava e imitava o que se passava à minha volta. Tentei sempre imitar pessoas, ou recriar situações que os meus pais comentavam entre eles ou a nós como que a dar-nos o exemplo do que era alguém merecedor de amor, numa expectativa sempre frustrada de receber amor de volta. Cresci em volta de violência física, verbal, psicológica, vícios, maus hábitos e pessoas más de verdade, a perturbação de personalidade borderline foi o que me protegeu naqueles anos todos de abandono, humilhação e maus tratos, mas hoje é o que me nega uma vida livre de dor, de medo.

Escreve que «a não aceitação de uma doença torna-nos no nosso pior inimigo». Qual foi o processo emocional para passar da negação à aceitação do diagnóstico de borderline?

É um processo muito duro, muito difícil, muito pessoal. Note que eu tive uma vida péssima, mas primava por ser uma excelente mãe, excelente esposa, excelente dona de casa, contudo, stressava muito, todos em casa me viam assim, stressada. Sempre a limpar, sempre a inventar uma receita nova, sempre a fazer um bolo para os lanches (...) Eles estavam habituados a estes extremos, mas daí a terem uma mãe, uma esposa, com um diagnóstico de doença psiquiátrica é outro nível. Eu própria sabia que se passava algo comigo (...) Não queria ser acompanhada toda a vida, tomar medicação, sentir-me assim tão mal, não entendia porquê, porquê eu (...) só depois daquele dia nas urgências é que decidi que mais valia ir aceitando o que não podia mudar e tomar o que fosse preciso (...) o importante é que acabei por aceitar a borderline como o astigmatismo que tenho desde os 18 anos. Também não gosto de usar óculos, mas é a vida!

Ao longo da obra, há uma presença constante da espiritualidade e da fé. Que papel desempenhou essa dimensão na sua luta contra a doença e na reconstrução da sua vida?

Eu costumo brincar com o meu marido e dizer que eu sou uma «queridinha de Deus». Mas a verdade é que sinto mesmo isso. Se pensarmos que eu cresci em bairros problemáticos, que o meu pai levou 3 tiros, 6 facadas, que a minha infância foi marcada pela pobreza extrema, pelo abandono e a violência. Que frequentei unicamente o 10.º ano de dia, porque depois fui estudar à noite e comecei a trabalhar, só para conhecer o meu marido. Que tive de fazer uma histerectomia por causa da endometriose, mas, apesar da elevada probabilidade de infertilidade associada à doença, tive três filhos maravilhosos; o útero só foi retirado após o nascimento do meu 3.º filho. Que criei uma ligação de amor verdadeira com o meu pai antes de ele falecer, ele conheceu e amou os netos, eu tive a possibilidade de tratar do funeral dele. Que hoje tenho duas filhas na faculdade, uma a terminar a licenciatura, outra a tirar psicologia, o mais novo no 5.º ano; que posso pagar os tratamentos e a medicação, que continuo casada e sou amada apesar desta doença que tantas vezes me rouba o sorriso.

Como não acreditar em Deus? Como não lhe agradecer a força que me dá todos os dias para me reerguer?

Como não reconhecer os milagres que Ele tem feito na minha vida? É graças a Ele e à sua força que a minha vida acontece todos os dias!

O livro é um relato cru e íntimo, mas também estruturado com informação clínica. Como encontrou o equilíbrio entre a vulnerabilidade pessoal e a clareza pedagógica para o leitor?

Eu tentei ser o mais honesta possível, para que o leitor com borderline, depressão, ansiedade, consiga criar um laço comigo nas minhas palavras. Gostava muito de conseguir isso, de o leitor saber que não está sozinho, de verdade! E depois tentei trazer alguma informação precisa que trouxesse alguma luz no caminho, não para ser o exemplo, mas para ser o luzeiro que traz iluminação àquele lugar escuro onde muitas vezes nos encontramos. Acho que encontrei esse equilíbrio nessa vontade de chegar ao outro com profundo respeito e carinho.

Que papel teve a escrita no seu processo de cura? Foi apenas uma forma de comunicar ou também uma ferramenta terapêutica para reorganizar pensamentos e emoções?

Escrever o livro foi um desejo desde o início de comunicar aos outros o poder devastador da borderline e de como podemos aprender a conviver com ela, mas transformou-se, sim, num processo de cura. Com o lançamento do livro relações foram cortadas, não por minha vontade, pessoas revelaram aquilo que realmente pensavam sobre mim e sobre a minha forma de estar na vida, o que foi importante. Recebi inúmeros testemunhos de leitores que me confidenciaram ter borderline e que mais ninguém sabia, chorei muito ao ler cada um deles. O Doutor João Carlos Melo recomendou o meu livro (...) Fui ao programa da Tânia Ribas falar sobre a borderline, o que também ajudou a libertar mais uns medos. Todo este processo foi terapêutico e libertador. Hoje sou mais eu, sem medos. E quando tenho medos, faço por ir na mesma de coração aberto!

A noite · p. 36–37

Gala dos
Autores 2026

A 8.ª edição da Gala dos Autores ocorreu a 7 de fevereiro de 2026, em Lisboa, celebrando mais um ano dedicado aos autores portugueses e às suas obras. Num final de tarde marcado pelo glamour e pela expectativa, mais de trezentas pessoas reuniram-se para uma cerimónia memorável. Pela primeira vez foram entregues treze prémios, agora renovados com novos designs. Pelas mãos da nossa designer Daniela Guedes, os prémios Cordel D' Prata reinventaram-se, e nasceram ainda os troféus Meialonga.

O ambiente estava jubiloso e, no ar, pairava a pergunta inevitável: «Quem será o vencedor do prémio Melhor Obra 2026?».

Com a presença notável da cantora Marta Sinaré, que iniciou a cerimónia com a performance do tema «When You're Good to Mama», a Gala dos Autores augurava uma cerimónia marcada pela excelência artística. Pela primeira vez na história do evento, a apresentadora Lara Afonso partilhou o palco com uma figura já bem conhecida do público: Carlos Félix, que todas as semanas entrava nas casas das crianças, através dos seus telemóveis, com a rubrica Hora de Deitar. Fez sentido juntar estes dois mundos, adulto e infantil, que formam a essência do grupo Cordel D' Prata.

Entre momentos emotivos de entrega de prémios, de performances mágicas e de discursos sentidos, destacou-se um dos momentos da noite: a revelação do resultado final da obra «As histórias da Nô – Vol. 1: Um mundo cheio de emoções». Um projeto muito especial para a autora, nascido do afeto e dedicado à sua mãe, que emocionou todos os presentes.

O prémio de Melhor Obra foi entregue, como já é tradição, de forma muito criativa. O troféu mais desejado da noite foi «roubado» pelos membros da equipa e dado como desaparecido. Até que, no grande ecrã, surge um vídeo que revela o seu paradeiro. Instantes depois, o prémio entra na sala e, pela voz de Luis Rodrigues, é anunciado o nome vencedor: «Lina Simão, com a obra A minha avó e o sol»! A autora, visivelmente em choque, subiu ao palco acompanhada pelo filho, profundamente emocionado, num momento de grande ternura que marcou a noite.

Lara Afonso, de vestido vermelho, no palco com o troféu
Lara Afonso, a apresentadora, com o troféu mais desejado da noite
Lina Simão abraçada ao filho no púlpito
Lina Simão e o filho
Carlos Félix e Lara Afonso no palco
Carlos Félix e Lara Afonso
Um momento de espetáculo no palco da gala
Música e dança em palco
O palco da Gala dos Autores
A sala, em Lisboa

Os grandes vencedores desta grande noite!

Prémios Cordel D' Prata
Melhor Obra 2026
Troféus Meialonga
  • Capa de «O Gato e Outras Estórias»
    Cordel D' Prata · Ficção LiteráriaO Gato e Outras EstóriasNuno de Sousa
  • Capa de «Posso falar-te de velhos?»
    Cordel D' Prata · Não-FicçãoPosso falar-te de velhos?Maria Jesus Névoa
  • Capa de «Raposas»
    Cordel D' Prata · PoesiaRaposasRúben Lopo
  • Capa de «Os Guerreiros das Pedras Universais»
    Cordel D' Prata · FantasiaOs Guerreiros das Pedras UniversaisHorácio Pinto
  • Capa de «Till Death Do Us Together»
    Cordel D' Prata · RomanceTill Death Do Us TogetherLúcia Diógenes e Nogueira
  • Capa de «Um Passado Presente»
    Cordel D' Prata · Thriller e SuspenseUm Passado PresenteB. Medina
  • Capa de «As viagens da Íris: Antártida, aqui vou eu!»
    Meialonga · Diversão & ImaginaçãoAs viagens da Íris: Antártida, aqui vou eu!Marta Espírito Santo
  • Capa de «Desafio de Leão»
    Meialonga · Educação & DesenvolvimentoDesafio de LeãoFilipa Alves
  • Capa de «Crescer com Amor»
    Meialonga · Mensagem & ValoresCrescer com AmorAna Trindade
  • Capa de «Abraça-te a mim…»
    Escolha do Leitor · Não-InfantilAbraça-te a mim…Afonso Teixeira Lento
  • Capa de «A Gotinha Vermelhusca»
    Escolha do Leitor · Infantil Cordel D' PrataA Gotinha VermelhuscaIolanda Santos
  • Capa de «Desafio de Leão»
    Escolha do Leitor · Infantil MeialongaDesafio de LeãoFilipa Alves
  • Capa de «A Minha Avó e o Sol»
    O grande prémio · Melhor Obra 2026A Minha Avó e o SolLina Simão
Entrevista · p. 38–39

Entrevista aLina Simão

Há histórias que nascem daquilo que permanece: memórias, afetos e presenças que nunca se apagam. Em «A Minha Avó e o Sol», dá forma a uma narrativa luminosa sobre os laços que nos sustentam e sobre a necessidade de olharmos, com mais atenção, para quem veio antes de nós. Nesta entrevista, partilha a emoção do reconhecimento, as raízes desta história e o modo como a escrita se torna um gesto de proximidade e de amor.

Como descreve o momento exato em que ouviu o seu nome ser anunciado como vencedora do prémio de Melhor Obra de 2026 na Gala dos Autores?

Descrevo esse momento como um dos mais emocionantes da minha vida, um turbilhão de incredulidade e felicidade. Quando o queridíssimo Luís Rodrigues anunciou o meu livro e o meu nome como «Melhor Obra 2026», fiquei radiante e, ao mesmo tempo, num doce desconcerto emocional.

O meu filho e o meu marido abraçaram-se a mim, sendo que o meu filho chorava, de felicidade, claro! Entre holofotes e emoções, até o laço do meu vestido se desfez, um detalhe engraçado porque uma mulher gosta de estar sempre composta, hi, hi, hi! Mas um detalhe sem a mínima importância perante aquele momento extraordinário.

A minha profunda gratidão à Cordel D' Prata/Meialonga por este troféu e por serem sempre tão generosos comigo. Jamais esquecerei.

«A Minha Avó e o Sol» emocionou leitores de todas as idades. O que a inspirou a escrever esta história e que caminho emocional percorreu até ao livro ganhar forma?

Eu pretendia, exatamente, criar um livro acessível a todas as gerações. Para isso, queria uma história que fosse simples, podendo ser lida, contada ou ouvida quer por crianças pequenas quer por adultos ou seniores pouco ou nada escolarizados. Desejava uma história que unisse gerações e permitisse chegar a diferentes contextos. Explorar o tema dos avós encaixava-se perfeitamente nessa minha intenção. A principal inspiração do livro foi a minha mãe, alguém tão especial para mim, que moldou profundamente quem sou hoje.

Quis também conseguir uma espécie de equilíbrio, em que, sendo a história muito simples, se complementasse e enriquecesse com atividades que podem ser realizadas em família, numa escola, num ATL, num Centro de Dia, etc. A ideia foi colocar um pedacinho de amor em cada detalhe para conseguir chegar às crianças e aos adultos, incluindo os seniores.

O seu filho esteve consigo em palco num dos momentos mais importantes da sua carreira literária. O que significou para si ter a família presente e partilhar este reconhecimento com ele?

A minha família é o meu porto de abrigo. O companheiro da minha vida e o meu filho foram os que me acompanharam neste dia e celebraram comigo. O meu filho, João, emocionou-se profundamente e chorou de alegria. Foi ele quem partilhou a notícia com o resto da família que também ficou feliz por mim. E, já no quarto do hotel em modo mais privado e descontraído, eu e ele dançámos e cantarolámos com o troféu na mão! Um momento inesquecível!

A obra aborda temas que tocam memórias, afetos e relações familiares. Em que medida a sua própria história influenciou o tom e a mensagem do livro?

Acredito que, de forma mais direta ou mais subtil, aquilo que escrevemos toca sempre algo do que somos e da nossa própria história. No caso do livro «A Minha Avó e o Sol» este parte de vivências pessoais minhas, sim. Mas quanto ao sentido da narrativa, em si mesma, inspirei-me muito na avó Benilde, a minha própria mãe que, infelizmente, nos últimos anos da sua vida, viveu momentos de grande solidão. Apesar disso e de expressar um certo desconforto devido à falta de sol, a minha mãe foi uma grande mulher.

Na realidade, a solidão da minha mãe, a solidão que procurei retratar através da personagem «avó Gigi», de forma suave e terna para se apropriar ao universo infantil, é a solidão que, infelizmente, muitos idosos vivenciam. Se os nossos mais velhos foram ou continuam a ser «sol» para nós, porque não nós sermos «sol» para eles? Se virmos bem, nós podemos ser, no fundo, «sol» uns dos outros. O livro remete para essa equação.

Que mensagem gostaria de deixar a escritores, e a quem sonha escrever, que veem no seu percurso uma inspiração?

O universo das letras sempre foi um lugar feliz para mim. Ler muito na infância e na adolescência deu-me bases importantes. Considero, ainda, estar a dar passos de bebé, enquanto escritora. Mas tenho uma vontade enorme de prosseguir a escrever.

A quem sonha escrever, diria: não fiquem à espera. Movam-se. Avancem. Proponham. Arrisquem. Leiam muito, preparem-se, aprimorem o que escrevem, percebam o que existe e o que podem oferecer. E, por certo, o que têm na gaveta, irá enriquecer o mundo de alguém. A vossa escrita pode ser sol para alguém. Se não derem o primeiro passo, nunca saberão.

Lina Simão no palco da gala
No palco
Lina Simão abraça o filho na plateia
O abraço ao filho, João
A plateia aplaude
A sala aplaude
Entrevista · p. 40–41

Inesinha
Estelar

Inês Ciceri escreve a partir de um lugar íntimo, onde o afeto, a memória e o olhar sobre si mesma se transformam em palavras. Em Pop Corn Eu Me Amo, Eu Te Amo, o quotidiano ganha significado através de pequenos gestos e símbolos, revelando uma escrita profundamente ligada ao amor próprio e à aceitação. Nesta entrevista, partilha a origem do livro, a força das ligações humanas e aquilo que espera despertar em cada leitor.

O que a inspirou a escrever este livro?

O que me inspirou a escrever este livro foi a minha mania que através do positivismo tudo se transforma.

Qual considera ser a mensagem central da sua obra?

A mensagem central da minha obra é se eu aprender a gostar de mim do jeito e modo como eu sou, se os outros gostarem deles do jeito e modo que são, eu irei gostar dos outros assim como eles são e os outros irão gostar de mim como eu sou sem ponderar questões de opiniões próprias.

Acredita que os laços criados na infância podem durar para sempre?

Os laços da infância dados e recebidos de aconchego, ternura, candura, acalento e alento são comparados a pedras preciosas lapidadas que sempre mantém o seu brilho, preservados como joias raras no tempo.

Como surgiu o título da obra e o que ele representa?

O título da minha obra, Pop Corn Eu Me Amo, Eu Te Amo, surgiu a partir de um pacote de pipocas. Eu e meu marido fomos ao cinema e trouxemos para casa o pacote de pipocas que sobrou. Esvaziei o pacote, cortei-o e colei-o em um caderno, tenho o hábito dessa prática. Como tenho o costume de escrever mensagens, palavras soltas, frases únicas, contos e narrativas em cadernos em branco, comecei a escrever ali.

A obra representa cada ser humano como pipocas saltando em diferentes formas e sabores, transformando-se conforme o “sabor único” escolhido por cada um.

O que espera que os leitores aprendam sobre si mesmos ao lerem o livro?

Eu espero que os leitores tenham curiosidade do desejo, da vontade, do impulso curioso de desvendar o sentido de fazer a prática da revelação dos seus próprios enigmas.

Inesinha Estelar
Ilustração do livro: uma família sentada numa manta às riscas, com o pacote de pipocas
Livros em destaque · p. 42–43

Aprendernão é só na escola!

Capa de «Tenham lá paciência, mas os livros também têm sentimentos», de Sílvia Barros

Tenham lá paciência, mas os livros também têm sentimentos

Sílvia Barros

O sonho de qualquer livro é ser importante na vida de alguém. E não é por ser velhinho que perde o seu valor. Mudar de vida pode fazê-lo sonhar novamente. Mas encontrará ele motivos para se sentir vivo e útil outra vez?

Capa de «Voluntariado, um amor com futuro», de Rita Cortesão Figueiredo

Voluntariado, um amor com futuro

Rita Cortesão Figueiredo

Uma amizade improvável entre Teresa e o robô João demonstra que o trabalho em equipa vale sempre a pena. Onde os sonhos se tornam realidade, conscientes do papel de cada um

Capa de «O Letrinhas», de Ivo Guedes

O Letrinhas

Ivo Guedes

A vida de um lápis, o Letrinhas, na era da computação, onde o teclado é mais utilizado. Ele está triste, pois não o utilizam para a escrita. No entanto, o aparecimento de uma menina na vida deste lápis irá fazer toda a diferença. Como será isso possível? Conhece as aventuras do Letrinhas para saber!

Capa de «Tudo o que não tenho de ser», de Inês Rocha

Tudo o que não tenho de ser

Inês Rocha

Segue o nosso protagonista e descobre uma história que combina os sonhos, aspirações e medos da criança com uma poderosa mensagem de aceitação e amor incondicional.

Capa de «A Ana conhece o erro», de Perséfone Baltazar

A Ana conhece o erro

Perséfone Baltazar

Esta é a história do encontro entre a Ana e o Erro, um monstrinho incómodo que a visita de forma inesperada, fazendo-a experimentar sensações desagradáveis que não conhece. Como será que a Ana consegue lidar com o Erro?

Capa de «Vamos salvar o nosso Planeta», de Sandra Loureiro

Vamos salvar o nosso Planeta

Sandra Loureiro

A curiosidade das crianças possibilita o aumento do seu conhecimento de uma forma fascinante! A Tita e o Joca descobriram como contribuir para um Planeta mais saudável e feliz! Mas somente a mudança deles será suficiente para salvar o Grande Planeta Terra!?

Capa de «A aventura dos moedinhas», de João Sidónio de Oliveira

A aventura dos moedinhas

João Sidónio de Oliveira

Rodrigo e Alice descobrem uma moeda mágica que os leva à cidade de Económia, onde aprendem, com personagens encantados, a importância de poupar e investir. Esta aventura ensina crianças a gerir dinheiro de forma inteligente e divertida.

Capa de «Os amigos do dez vão à festa», de Catarina Roldão

Os amigos do dez vão à festa

Catarina Roldão

Uma leitura divertida e educativa para crianças e uma ferramenta para professores e pais na exploração, com os mais novos, de números naturais que adicionados dão 10.

Capa de «É hora de meditar», de Susana Resende

É hora de meditar

Susana Resende

Meditar é brincar com a mente, relaxar e encontrar a felicidade. É um convite a explorar um universo onde a imaginação e a criatividade não têm limites, trazendo calma, equilíbrio e bem-estar ao nosso dia a dia.

Rubricas · p. 44–45

As estantesdos autores

O que ocupa, afinal, as estantes de quem escreve?
Leituras recentes, projetos em curso e livros que marcam.

Raquel Rodrigues Capa de «Cartas a uma amiga...», de Raquel Rodrigues

Raquel Rodrigues

Autora de «Cartas a uma amiga...»

Continuo a escrever Cartas a uma amiga e a preparar mais um conjunto de textos que nos convidam a parar e refletir. “E tu?” continuará a ser o mote para as reflexões que proponho sobre para cada sentimento que emana das relações humanas e, cuja “matéria-prima” é inesgotável. Aprecio a leitura de textos de cariz mais reflexivos, curtos e intensos como o que estou a ler «Inspira-te» de Sofia de Castro Fernandes. Depois de lerem «Cartas a uma Amiga» porque não experimentarem o livro de Marta Arrais «Guia para uma vida Simples».

A ler agora:
Capa de «Inspira(te)», de Sofia de Castro Fernandes
Para ler a seguir:
Capa de «Guia para uma vida simples», de Marta Arrais
Miguel Cristóvão Capa de «Final Perfeito», de Miguel Cristóvão

Miguel Cristóvão

Autor de «Final Perfeito»

Diz-me o que tens na tua estante que eu dir-te-ei quem és… principalmente a dos autores. Na minha tenho histórias que já vivi e histórias por nascer. Neste momento tenho uma a ganhar contornos sobre obsessões sensoriais, infidelidade e mortes… noutra prateleira está o livro «O tatuador de Auschwitz» de Heather Morris que vou retirando para ler nos tempos livres. Para vos recomendar tenho aqui na prateleira de cima o livro «A paciente Silenciosa» de Alex Michaelides. Entre livros lidos e histórias por escrever, a estante de um autor é onde tudo começa.

A ler agora:
Capa de «O tatuador de Auschwitz», de Heather Morris
Para ler a seguir:
Capa de «A paciente silenciosa», de Alex Michaelides
Lúcia Nogueira Capa de «Till Death Do Us Together», de Lúcia Diógenes e Nogueira

Lúcia Nogueira

Autora de «Till Death Do Us Together»

Estou a escrever um novo livro, agora em português, sobre sentimentos e coisas que normalmente guardamos para nós, mas que partilho com o leitor. Estou agora a ler «The spanish love deception». Uma recomendação de leitura. O meu livro «Till death do us together», claro :)

A ler agora:
Capa de «The Spanish Love Deception», de Elena Armas
Para ler a seguir:
Capa de «Till Death Do Us Together», de Lúcia Diógenes e Nogueira
Ludovina Silva Capa de «Poetando com Alma», de Ludovina Silva

Ludovina Silva

Autora de «Poetando com Alma»

Uma biblioteca num palácio mágico e o encanto pela leitura transportam rapaz e gato para uma deliciosa aventura…tudo isto regado com uma pitada de humor poético. Empilhado na mesa de cabeceira, espera-me «A filha da Louca», de Maria Francisca Gama. Recomendo: «Ensaio sobre a Cegueira» de José Saramago. “Cegos que, vendo, não veem”. É preciso ver e debater.

A ler agora:
Capa de «A filha da louca», de Maria Francisca Gama
Para ler a seguir:
Capa de «Ensaio sobre a Cegueira», de José Saramago
Rubricas · p. 46

Mistério
na CordelDia Mundial do Livro

No dia 23 de abril de 2026, data em que se comemora o Dia Mundial do Livro, a Cordel D’ Prata realizou um evento inédito: um autor, um livro sem nome, um mistério. Quem escreveu a obra secreta?

Numa noite que juntou vários autores nos escritórios de Lisboa, foram distribuídas várias pistas, algumas reveladoras, outras enganadoras, que alimentaram conversas, suspeitas e adivinhas, num ambiente envolto em curiosidade e cumplicidade. Este encontro celebrou o convívio e a paixão de todos pelos livros e pela literatura.

O prémio era bastante aliciante, uma noite no Hotel Wine and Books Lisboa, uma parceria que simbolizou a união entre duas entidades movidas pelo amor às histórias e às pessoas. Para ganhar, o autor tinha apenas de ter uma aposta certeira no nome do escritor mistério.

Wine & BooksHotels · ★★★★★ · Lisboa

No fim da noite, este foi desvendado e, o vencedor, Nuno Sousa, foi anunciado.

Após agradecer, leu um excerto da obra «Beco dos Ecos», novidade da autora Ana Peyroteo - a nossa cúmplice nesta iniciativa memorável, que ficará guardada na memória de todos os presentes.

Capa do livro sem nome: «Mistério na Cordel», autor desconhecido
O livro sem nome
Capa de «Beco dos Ecos», de Ana Peyroteo
A obra secreta: «Beco dos Ecos», de Ana Peyroteo
Autores reunidos nos escritórios da Cordel D' Prata, em Lisboa, com as pistas do «Mistério na Cordel» nas mesas
A noite do mistério, nos escritórios de Lisboa
Um autor lê o livro sem nome
O livro sem nome, lido em voz alta
Nuno Sousa, o vencedor, com o voucher de uma noite para duas pessoas no Wine & Books Hotel Lisboa
Nuno Sousa, o vencedor, com o prémio: uma noite no Wine & Books Hotel Lisboa
Rubricas · p. 47

O escritor é leitor

Quem escreve, lê — e quem lê, acumula manias, implicâncias e prazeres secretos.

  • Tiago FerreiraTiago Ferreira

    Pet peeveHistórias sem alma.

    Guilty pleasureAmores improváveis, segredos perigosos e reviravoltas que viram tudo do avesso.

  • João do CarmoJoão do Carmo

    Pet peeveTriângulos amorosos forçados.

    Guilty pleasureCheirar os livros e espreitar a última página.

  • Inês CruzInês Cruz

    Pet peeveHistórias que criam expectativa sem a cumprir no final ou que se prolongam mais do que o necessário.

    Guilty pleasureThrillers psicológicos que me prendem até à última página e, em contraste, os clássicos da literatura infantil.

  • Ema RawcliffeEma Rawcliffe

    Pet peeveLivros que acabam num cliffhanger cruel. Ser interrompida a meio de um capítulo quando estou imersa na história.

    Guilty pleasureComprar livros novos, quando a pilha que tenho em casa já parece uma torre de Jenga e jurar que vou ler ‘só mais um capítulo’ (e ler cinco).

  • Beatriz ConceiçãoBeatriz Conceição

    Pet peeveEnredos arrastados ou diálogos artificiais

    Guilty pleasureUm bom romance clichê.

  • Sara Pereira FernandesSara Pereira Fernandes

    Pet peeveSagas com livros de alturas diferentes | Capas com spoilers ou com autocolantes impossíveis de remover.

    Guilty pleasureNão acredito no conceito de guilty pleasures em livros, desde que traga prazer ao leitor nunca será algo para se sentir “guilty”.

Rubricas · p. 48–49
Papel rasgado com a frase manuscrita «Voltar a publicar é continuar a acreditar na palavra.»

Autores e as
suas segundas(e terceiras, quartas, etc...)obras

A experiência de publicar com a Cordel D’ Prata.

Publicar um livro pode ser um começo — regressar é, muitas vezes, uma escolha consciente. Para os autores que voltam a editar com a Cordel D’ Prata, cada nova obra nasce já acompanhada por um caminho partilhado, feito de experiências anteriores e de uma relação que se consolida ao longo do tempo.

Porque escolhem novamente a editora?

Ana Peyroteo

Ana Peyroteo

Para mim, escrever é libertação. É sair de mim e da minha realidade. É criar personagens e vivências, explorar emoções e reações humanas, dissecá-las. Depois, a Cordel D’ Prata, com a sua incrível equipa, transforma as páginas escondidas no meu computador em algo concreto: um livro. Abordei a Cordel para o meu primeiro livro e a ela retornei mais duas vezes. Adoro o resultado final. Adoro a qualidade que imprime em tudo o que faz e a simpatia de toda a equipa.

Capa de «Contra Tempo», de Ana Peyroteo
Capa de «A Avó Simone», de Ana Peyroteo
Capa de «Beco dos Ecos», de Ana Peyroteo. Novidade.Novidade
B. Medina

B. Medina

A colaboração com a Cordel D’ Prata tem sido exemplar, marcada por rigor e profissionalismo. Essa consistência reforça a minha confiança e justifica a continuidade desta parceria.

Capa de «Um Passado Presente», de B. Medina
Capa de «Por detrás da máscara», de B. Medina. Novidade.Novidade
Sérgio Paiva

Sérgio Paiva

Publicar com a Cordel D’ Prata tem sido dar voz aos meus silêncios e forma às minhas palavras. pela sensibilidade e dedicação da equipa, continuo a confiar-lhes cada nova história que nasce em mim.

Capa de «Camadas da Alma», de Sérgio Paiva
Capa de «50 Poemas», de Sérgio Paiva
Sílvia Ribeiro Silva

Sílvia Ribeiro Silva

Escrever é libertar da alma, as palavras que ao mundo gostaria de gritar. Papoilas e Malmequeres, Cartas a Margarida e como não há dois sem três, brevemente Amar-te-ei ao Entardecer. Porque a Cordel D’ Prata é essência e nos ajuda, autores, a afirmar que sim, que é possível deixar o nosso nome escrito no tempo.

Capa de «Papoilas e Malmequeres», de Sílvia Ribeiro Silva
Capa de «Cartas a Margarida», de Sílvia Ribeiro Silva
Capa de «Amar-te-ei ao Entardecer», de Sílvia Ribeiro Silva. Novidade.Novidade
Daniel Sanina

Daniel Sanina

Ser autor Cordel D’ Prata… é sentir paixão e confiança! É assistir à constante evolução, proporcionada por um vigoroso empenho e uma glamorosa entrega, sempre face à inovação, agregada ao generoso fator humano e ao máximo cuidado dos melhores profissionais de excelência!

Capa de «Asas Laboratório», de Daniel Sanina
Capa de «A Espada da Letra», de Daniel Sanina

Em breve um novo livro!

E ao final, saber que a conquista do feito, vem provida de mestria, pois é feito com amor, numa parceria quão grata… é ter essa garantia… junto à palavra de autor… a palavra Cordel D’ Prata!

Rubricas · p. 50–53

Um pouco dePortugal

Pelas palavras dos nossos autores!

A literatura faz-se de vozes, mas também de lugares. Cada texto nasce num território concreto — numa rua, numa casa, numa paisagem, numa memória coletiva — e é dessa geografia íntima que se constrói o mapa vivo da escrita. A Cordel percorre o país de norte a sul, continente e ilhas, reunindo vozes para mostrar que a criação literária nacional não se concentra num único lugar, mas nasce e cresce em todo o país.

Em pequenos textos, os autores da Cordel D’ Prata refletem sobre a importância da literatura na sua região e sobre a cultura de leitura no seu distrito, compondo um mapa plural e vivo da escrita contemporânea em Portugal.

Mapa de Portugal continental, Açores e Madeira, com os nove pontos de onde escrevem os autores 1 2 3 4 5 6 7 8 9
Pedro Maltez1

Bragançapor Pedro Maltez

Em Bragança, as palavras nascem do som da madeira a arder numa tarde de inverno. A literatura escreve-se entre montanhas e carrega a voz de um povo, onde a palavra serve para preservar aquilo que o tempo insiste em levar. Escrever é um ato de sobrevivência. De ficar. De existir. Não é ruído. É a nossa voz. O grito transmontano.

Patrícia Flores2

Portopor Patrícia Flores

O Porto é um verdadeiro epicentro literário, onde as histórias convivem com a cidade todos os dias. Entre livrarias históricas, como a Lello ou a Moreira da Costa, cafés literários como o Candelabro ou o Pinguim e uma programação cultural viva, acredito que a leitura faz cada vez mais parte do pulsar da cidade. A literatura, nomeadamente a infantil, tem um papel essencial na formação de leitores atentos, interessados e curiosos. Através do meu livro «Gonçalo e a magia fora dos ecrãs» e do meu podcast Histórias da Pi, procuro aproximar as crianças dos livros, ajudando-as a descobrir que as histórias têm um poder incalculável na nossa vida. Tenho tido a oportunidade de levar o meu livro a diversas bibliotecas e escolas do norte, onde o contacto direto com a comunidade escolar confirma uma vontade genuína de ouvir, ler e conhecer histórias, reforçando a importância da literatura como espaço de crescimento, imaginação e ligação ao mundo.

Maria da Candelária3

Guardapor Maria da Candelária

Ser escritora e leitora no meu distrito é habitar um território feito de palavras. Num tempo em que a voz se desfaz depressa, encontro na escrita a firmeza que me sustém. No papel, deixo repousar o que me desafia e move, e dele recebo silêncio, clareza e abrigo.

Leio os autores da minha terra como quem escuta o pulsar das ruas e das paisagens que me formaram. Sinto uma alegria serena ao ver novas vozes a surgir, partilhando histórias que nos aproximam e guardam a essência do lugar que somos.

Mário Pereira4

Aveiropor Mário Pereira

No distrito de Aveiro, a literatura sempre serviu de lugar de travessia: entre o mar e o interior, entre a fábrica e a escola, entre o operário e o leitor. Por aqui passaram vozes que encontraram na escrita uma forma de compreender o país — algumas levaram o nome além-fronteiras, outras guardaram-no apenas na memória local. Fala-se muito de quem nasceu, viveu ou apenas passou, mas o importante é isto: ler sempre foi uma maneira de imaginar e lembrar ao mesmo tempo. Talvez por isso as feiras, as bibliotecas e os clubes de leitura nunca tenham deixado de ter público. Quem cresce neste território entende que os livros não são ornamento; são ferramentas: de consciência, de imaginação e de futuro.

Catarina Gomes5

Castelo Brancopor Catarina Gomes

O distrito de Castelo Branco é sinónimo de riqueza cultural que estimula a criatividade. A calma, a tranquilidade e a qualidade de vida assumem-se como referenciais para uma escrita envolvente, funcionando como catalisadores da resiliência que nos caracteriza face aos desafios demográficos e geográficos. A literatura tem desempenhado um papel fundamental na valorização das vivências locais e no reforço da identidade cultural do Interior.

Tânia Militão6

Portalegrepor Tânia Militão

Entre planícies, serras e vagar. Entre manhãs adornadas por neblina e tardes soalheiras, Portalegre, arrebatadora e altiva, convida-nos, sem pressa, à escrita e à reflexão.

Numa região marcada pelo isolamento, injustiçada e esquecida, escrever torna-se uma forma de escutar a terra, levá-la e elevá-la além-fronteiras.

Enquanto escritora e leitora orgulhosamente portalegrense, acredito piamente que cada história tem a nobre missão de aproximar as nossas gentes, educar e sensibilizar para questões fundamentais que de outra forma jamais chegariam até nós.

Procuro dar visibilidade ao que muitas vezes é considerado invisível e mostrar que o Alto Alentejo, apesar de todas as dificuldades, é uma região viva, rica e pulsante, detentora de um enorme potencial subaproveitado.

Ler e escrever por aqui é uma forma de pertencer. É um ato de esperança ao acreditar que o dom da palavra tem magnitude para quebrar o isolamento, construir empatia e carregar no rugido da nossa voz as histórias, a fibra e a humanidade que aqui despontam.

Daniel Geraldo7

Faropor Daniel Geraldo

No Algarve, a literatura nasce do encontro entre a paisagem, a memória e a palavra, mas também das salas de aula onde a leitura é a primeira ponte entre a criança e o mundo. No Algarve, a cultura literária constrói-se entre a oralidade, a diversidade cultural e o forte sentido de pertença a um território muitas vezes contado por outros. Como professor do 1.º Ciclo e autor de livros infantis, acredito que promover a leitura desde cedo é essencial para formar leitores críticos, sensíveis e conscientes da sua identidade, permitindo que as crianças se reconheçam nas histórias que leem e compreendam que o Algarve também se escreve, preservando a sua cultura e unicidade local. Assim, a literatura, em especial a infantil, assume-se como um gesto de preservação cultural e de criação, contribuindo para a continuidade e renovação da literatura portuguesa.

Brenda Silva8

Açorespor Brenda Silva

Ilha Graciosa — onde a leitura é um gesto de pertença e a escrita uma forma de transformar a insularidade em força criativa. É como se cada página carregasse um pouco da ilha — mesmo quando o enredo corre mais depressa do que o vento que passa pelas suas encostas. Quem escreve ou lê na Graciosa carrega sempre a dupla sensação: a de pertencer a um território que inspira e a de contribuir para que a sua identidade cultural continue viva, vibrante e reconhecida.

João Pedro Gonçalves9

Madeirapor João Pedro Gonçalves

A minha relação com a leitura e com a escrita na Madeira nasce de memórias afetivas. Passei grande parte da minha vida, enquanto criança e jovem adulto, na papelaria e livraria do meu pai, espaços estes repletos de matéria-prima. Esta afetividade com o espaço fez-me compreender que a leitura, a escrita e o desenho não são atos exclusivos, mas sim formas universais de expressão, de pertença e de partilha. Numa ilha não há fronteiras quando sabemos voar.

Livros em destaque · p. 54–55

Livros para
acompanhar com umCopo de Vinho

O velho lobo do mar

José T. Morais

Admiramos Mestre João (o velho lobo do mar), sobre o qual se dizia ter um pacto com a baleia. Sentimos a sua dor ao perder o filho Jovelino, aquando dum naufrágio, e Esmeralda, a sua esposa, que partirá rumo ao “Novo Mundo”.

Capa de «O velho lobo do mar», de José T. Morais
Capa de «Para Sempre: Finding Home», de Raymond Silverthorne

Para Sempre: Finding Home

Raymond Silverthorne

É a mensagem de “esperança”, acima de tudo, que é demonstrada em «Para Sempre: Finding Home». A história de amor, felicidade e tristeza atravessa 200 anos para tecer uma grande tapeçaria que mostra como as vidas se ligam em diferentes países e tempos.

Capa de «Até Amanhã – Parte 1 – A Quebra da Tradição», de David Raposo

Até Amanhã – Parte 1 – A Quebra da Tradição

David Raposo

Miguel leva uma vida tranquila na aldeia de Vigal, até ao regresso inesperado da imponente família Vala Macedo. Com a chegada de Rafael, Miguel vê-se dividido entre a nova amizade e a lealdade à sua família. Será Miguel capaz de explorar a verdadeira profundeza da sua história?

Capa de «Uma gota de... luar», de Armando Neves

Uma gota de... luar

Armando Neves

De um homem comum também se pode fazer uma boa história ou, pelo menos, tentar. Às vezes, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Uma autobiografia, um livro de viagens, uma bem pensada ficção, uma pitada de livro humorístico, um livro de poemas respaldado de prosas ou uma amálgama de tudo isto.

Capa de «Contos Vagabundos», de Maria Cabral

Contos Vagabundos

Maria Cabral

Seis contos que revelam o ridículo, a dor e a poesia escondidos no quotidiano. No final, um monólogo transforma com humor Os Malefícios do Tabaco, de Tchekhov, em inesperados benefícios.

Capa de «Janelas Indiscretas e as suas memórias incertas», de João Sezinando

Janelas Indiscretas e as suas memórias incertas

João Sezinando

Doze janelas, todas diferentes, geram estórias sobre elas. Umas talvez verdadeiras, outras nem tanto. Todas as personagens são fictícias, mas as janelas são reais. São pequenos momentos do quotidiano nos quais poderíamos reparar se olhássemos para as janelas.

Capa de «O segredo do Planisfério de Cantino», de Cristiane Lisita

O segredo do Planisfério de Cantino

Cristiane Lisita

Um mapa roubado. Um segredo. Uma viagem inesquecível. É preciso superar desafios, limitações e medos para decidir: quebrar esse segredo ou deixar os homens em sua eterna cegueira. Um intrigante romance histórico e de aventura, inspirado em factos reais. Verás o mundo com outros olhos.

Capa de «Entre o Silêncio e o Tempo», de Rui Vasco Augusto

Entre o Silêncio e o Tempo

Rui Vasco Augusto

Às vezes, o amor não chega com trovões — chega devagar, no silêncio de um olhar e na constância do tempo.

Capa de «O Mnelzito», de Manuel Cajão

O Mnelzito

Manuel Cajão

Uma criança que nasce em ambiente rural. Irrequieto, curioso, espírito vivo, observa, grava, descreve/narra, entremeando pequenas histórias que foram acontecendo. Assim, ao ler ficamos a saber a geografia local, o trabalho, os utensílios, os hábitos e costumes.

Capa de «Bagos de Ternura», de Ana Paula Fernandes

Bagos de Ternura

Ana Paula Fernandes

A Eva perde-se no mundo real, egoísta e frio, e refugia-se onde faz feliz quem se cruza com ela. O sonho dá-lhe a segurança de sentir que tudo muda lá fora...

Capa de «Viagens e outras recordações», de Rita Sá Alves

Viagens e outras recordações

Rita Sá Alves

Em Viagens e outras recordações a autora escreve sobre o tempo que já passou, o tempo dos avós, dos pais, os almoços de família e toda a magia desses momentos. Algumas cidades de Portugal e a sua beleza também estão descritas neste livro, entre outros temas.

O ano da casa · p. 56–57

Onde os livros
ganham rosto!

As feiras do livro como ponto de encontro entre leitores, autores e histórias que ainda esperam ser descobertas

Ilustração de uma feira do livro à beira-rio: leitores folheiam livros entre bancas, com a cidade ao fundo
Uma feira do livro, entre bancas, famílias e leitores

Há livros que nascem em silêncio: numa secretária, num caderno aberto, numa madrugada mais teimosa. Durante meses, por vezes anos, pertencem apenas ao autor, ao editor, ao revisor e ao pequeno círculo que os acompanha até chegarem ao público. Mas há um momento em que deixam de ser apenas páginas impressas e passam a ser encontro. Esse momento acontece, muitas vezes, numa feira do livro.

As feiras do livro têm uma magia muito própria. São lugares onde se folheia sem pressa, onde uma capa chama por nós antes mesmo de sabermos o nome do autor, onde uma conversa casual pode transformar-se numa descoberta literária. Num tempo em que quase tudo se compra à distância e se escolhe por algoritmos, a feira devolve ao livro uma dimensão profundamente humana: a da proximidade.

Em Portugal, as feiras do livro continuam a ser essenciais para aproximar leitores, autores e editoras. Não são apenas espaços de venda. São praças culturais, ruas de papel, pequenos territórios temporários onde os livros saem das prateleiras e respiram ao ar livre, entre famílias, curiosos, leitores fiéis, professores, estudantes e escritores que procuram o seu público.

Para uma editora, estar numa feira é muito mais do que montar uma banca. É afirmar presença. É dizer: estes livros existem, estes autores têm voz, estas histórias merecem ser encontradas. Cada exemplar exposto é uma porta entreaberta. Cada leitor que pára, pergunta, folheia ou leva um livro consigo torna-se parte de uma cadeia invisível de divulgação.

A Cordel D' Prata tem vivido este caminho de forma muito próxima. No ano passado, marcou presença nas feiras do livro de Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra, Maia e Belém. Este ano, além de regressar a todas essas geografias literárias, levou também os seus livros ao Funchal. Esta circulação mostra que a literatura não deve ficar presa a um único centro. Os livros precisam de viajar. Os autores também.

Há algo de especial quando um leitor conhece quem escreveu o livro que tem nas mãos. A dedicatória transforma o exemplar num objeto único. A conversa cria memória. A pergunta “sobre o que é este livro?” pode abrir caminho a uma surpresa. Muitas vezes, o leitor chega à banca sem intenção definida e sai com uma história que parecia estar à sua espera.

Um livro comprado numa feira raramente fica sozinho: vai para casa, é comentado, emprestado, fotografado, recomendado ou oferecido.

Para os autores, sobretudo os que estão a construir percurso, esta presença é decisiva. A feira oferece visibilidade, contacto direto e reconhecimento. Permite ouvir opiniões, perceber reações e sentir o interesse real de quem passa. O livro deixa de pertencer apenas a quem o escreveu: ganha leitores, interpretações e vida própria.

As feiras do livro continuam, por isso, a ser uma das formas mais bonitas de promoção da leitura em Portugal. São vivas, acessíveis e imprevisíveis. Misturam leitores habituais com visitantes ocasionais, crianças encantadas pelas capas, jovens à procura de novidades e adultos que reencontram o prazer de descobrir.

Enquanto houver feiras, haverá esse instante quase mágico em que um livro, pousado sobre uma mesa, encontra finalmente o seu leitor.

Ilustração: uma autora assina um livro na sua banca, diante de dois leitores
A dedicatória transforma o exemplar num objeto único
Versos · p. 58

Igor Oliveira

Com o regresso do calor, regressa um poema.

Palavras de férias

Chegaram os meses de calor,
Começou logo um grande furor.
Um guarda-sol aqui, uma toalha acolá,
E um passaporte na mão, quiçá.

Até que tudo congelou no lugar,
Toda a gente num frenesim a procurar,
Alguns já a desesperar,
Pois as palavras não conseguiam falar.

Da cidade ao campo,
Do mar ao céu.
Nem do cão se ouvia o béu.
Teriam as palavras sarampo?

O silêncio já era longo,
Nem nos concertos se ouvia cantar.
Tinha a língua dado um tombo
Ou por algum crime estavam a pagar?

Eis que a memória chegou a alguém,
Pessoa que não era de grande esplendor.
No entanto, era atenta e pensou mais além,
Não fosse a pessoa um leitor.

«Estamos a revirar tudo, mas não paro de pensar.
E se em vez de na praia e no restaurante,
Procurássemos na estante,
Onde os livros estão a repousar?»

Assim foi resolvido o mistério,
Nos livros estavam o «bué» e o despautério,
Com óculos de sol e na piscina a mergulhar.
Afinal as palavras estavam só a descansar.

E, para crise futura, guardaram esta vitória
Bem fundo na sua memória.
Quando as palavras não aparecem no falar,
Só temos de os livros procurar.

Igor Oliveira
Igor Oliveira fecha cada número da revista com um poema.
Ficha técnica · p. 2

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4.ª edição · junho de 2026 · © 2026 Cordel D' Prata

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