Num tempo em que o livro disputa espaço com a pressa, os ecrãs e o imediato, a editora Cordel D' Prata escolheu ir em contraciclo: reduzir o formato para ampliar o alcance. Em 2025, o Concurso Livro de Bolso, lançado com foco na Região Norte, afirmou-se como uma proposta editorial e cultural que recupera a ideia do livro como objeto próximo, transportável, quase íntimo.
O projeto culminou num dia de apresentação pública no Mercado do Bolhão, no Porto, espaço carregado de memória urbana e hoje convertido num dos mais vivos palcos culturais da cidade. Ali, longe da solenidade das salas institucionais, dez novos autores viram os seus textos ganhar forma impressa: edições de bolso exclusivas, pensadas não como miniaturas de um livro maior, mas como obras completas, autónomas e assumidamente concisas.
O formato de bolso não é novo, mas raramente é tratado com a seriedade que esta iniciativa propõe. Em vez de ser encarado como produto secundário ou meramente económico, o livro de bolso surge aqui como escolha estética e editorial. Cabe na mão, cabe no dia a dia, e, talvez por isso, exige uma escrita mais intensa, mais depurada, sem excessos.
Já em 2024 a editora ensaiava este caminho, com a apresentação de edições especiais de bolso de obras do seu catálogo, num gesto de revisitação e aproximação ao leitor. O concurso de 2025 representa, contudo, um passo em frente: não apenas condensar o que já existia, mas lançar novas vozes diretamente neste formato, fazendo dele um ponto de partida e não um epílogo.
No dia da apresentação, o átrio do Mercado do Bolhão tornou-se uma pequena praça literária. Entre leitores habituais, curiosos que ali passavam e autores visivelmente emocionados, os livros circularam de mão em mão antes mesmo de serem lidos. Houve conversas breves, olhares demorados sobre as capas, leituras em voz alta que se fizeram ouvir entre bancas e colunas de ferro.
O ambiente foi deliberadamente informal. Sem palco elevado, sem distanciamento cerimonial, os autores foram apresentados um a um, com palavras breves sobre o percurso e sobre o texto agora publicado. Para muitos, aquela edição de bolso representava a primeira vez em livro, o primeiro objeto físico onde a escrita deixava de ser promessa para se tornar presença.
Essa opção por um espaço público e quotidiano não foi por acaso. Ao escolher o Bolhão, reforçámos a ideia de que o livro não precisa de isolamento para existir, podendo habitar os lugares de circulação, encontro e ruído. A literatura, ali, não interrompia o mundo, misturava-se antes com ele.
O Concurso Livro de Bolso selecionou dez autores, oferecendo-lhes não apenas a publicação, mas também um conjunto de exemplares impressos destinados à circulação direta. Trata-se de um modelo que alia reconhecimento simbólico a ferramentas concretas de entrada no circuito literário, num contexto editorial cada vez mais desafiante para quem começa.
Este compromisso com os novos autores é uma das marcas da Cordel D' Prata, tendo vindo a consolidar o seu trabalho junto da escrita emergente portuguesa.
Em 2025, esse investimento ganhou ainda maior solidez com o anúncio da criação da gráfica própria da editora, reforçando o controlo sobre todo o processo de produção e permitindo experiências como esta, onde forma e conteúdo caminham juntos.
Há, neste projeto, uma dimensão quase política, ainda que latente: a defesa de uma literatura que circula, que se oferece, que não intimida. Um livro que cabe no bolso pode também caber num primeiro leitor, num gesto de descoberta, num início de percurso.
Além de um concurso, esta iniciativa configura-se como um ensaio sobre novas formas de edição e mediação literária em Portugal. Pequenos no tamanho, estes livros são, afinal, grandes naquilo que propõem: proximidade, risco e confiança na força essencial da escrita.