À Conversa com a autora Vilma Martins

No âmbito do mais recente lançamento da obra “As Coisas de Vicente”, a nossa equipa editorial foi entrevistar a autora, falamos de Vilma Martins. Esta obra nasce de diversos momento recordados desde a infância do seu filho, quando Vicente tinha apenas três anos de idade, um testemunho único e sentido das recordações de uma mãe sobre a infantil do seu filho.

Para mim esta riqueza de revelações sucessivas é o que de melhor podemos extrair da meninice e do ser criança sem apressar as outras fases.

Vilma Martins

A sua obra destaca momentos vividos desde que o seu filho Vicente tinha três anos de idade. Na sua opinião qual o melhor que poderemos tirar das crianças?

V.M: Ao longo destes cerca de 6 anos pude presenciar a forma incrível como progressivamente o Vicente, em representação das crianças, foi desenvolvendo e apurando as suas potencialidades e capacidade de apreender o que o rodeia. Se numa primeira fase ele funcionava ao nível do pensamento mágico, com uma descodificação muito simplista do real, em fases posteriores foi evidente a sua evolução e o modo como se tornou capaz de fazer ligações mentais entre conteúdos, brincar aos trocadilhos, utilizar o humor, ter espírito crítico e até fazer recurso a algumas metáforas sem perder a espontaneidade, curiosidade e inocência tão características das crianças. Para mim esta riqueza de revelações sucessivas é o que de melhor podemos extrair da meninice e do ser criança sem apressar as outras fases.

Como foi o trabalho com o seu ilustrador, e na sua opinião como é que ele acrescentou valor ao seu livro?

V.M: Como se poderá constatar, o seu traço não resulta numa ilustração convencional de livro infantil. De certa forma a diferença também está aí, porque na realidade este não é um livro estritamente infantil, mas infanto-juvenil, no qual existirá um espaço de memórias que serão registadas por adultos e na minha perspectiva as suas ilustrações respondem de forma sintónica a esse leque de leitores.

Tendo por base esta premissa, foi manifestamente agradável a forma como o trabalho foi fluindo, diria que de modo muito natural e espontâneo. Posso afirmar que as alternativas foram sempre ponderadas em conjunto e sempre senti que houve respeito pela opinião de cada um. 

Essencialmente foi esse o valor que o Luís acrescentou nesta obra… O primar pela diferença no que respeita ao estilo de ilustração e o facto de termos conseguido criar as sinergias necessárias para que o objectivo (comum) fosse alcançado, o que tornou todo o processo simples e leve não deixando porém de haver um substrato de sobriedade e seriedade necessárias à concretização do que nos propusemos atingir. 

Vilma Martins

Se tivesse que nomear dois momentos marcantes nos episódios de Vicente, quais seriam?

V.M: Eu sou suspeita, porque se os registei é porque de alguma forma eles foram especiais ou caricatos ou reveladores. Talvez realce os que estão mais ligados aos vínculos emocionais! Um deles foi o momento em que o Vicente me questionou acerca de como é que tinha nascido e a reacção que teve ao se aperceber que esteve 9 meses dentro da minha barriga e o outro, foi quando tive que lhe transmitir a notícia de que o avô paterno, com quem tinha uma relação muito próxima, tinha falecido. Este último momento foi bastante forte e intenso, incluindo para mim, mas não deixou de ser um momento de grande crescimento para todos nós e que de certa forma também prepara para a vida. Mas existem muitos outros momentos, que chegam a roubar-nos gargalhadas ou a levar-nos a repensar na lupa que utilizamos quando observamos o que nos rodeia… Penso que essa é também a beleza deste livro, o mexer com as emoções e reequacionar conteúdos!

Podemos esperar um segundo exemplar sobre “Coisas de Vicente” quando ele se tornar adolescente?

V.M: Posso adiantar que não deixei de registar os nossos diálogos! Neste momento já temos 22 páginas escritas em word… Por isso, tudo pode acontecer!

plantei uma árvores, tive um filho e escrevi um livro… E isso fez-me reflectir, porque na realidade este livro abarca isso tudo. Reflecte o olhar atento do meu filho sobre o mundo, olhar esse condensado sob a forma de livro, livro esse que é feito de folhas que derivam das árvores!

Vilma Martins

Este livro é também uma forma de recordar a infância de Vicente? Talvez de o próprio quando crescer conseguir recordar-se a si próprio?

V.M: Sim, claro! É uma forma excelente de criar memórias, mas este livro é ainda mais que isso. Ele é concebido num momento muito marcante da vida de todos nós! Surgiu no primeiro confinamento da pandemia covid, em que tive que ficar com o Vicente em casa cerca de 4 meses. Entre aulas síncronas e assíncronas, registos e digitalização de trabalhos, limpeza de casa, realização de refeições e tanto mais, surge esta oportunidade que se tornou um projecto comum. O Vicente encara este livro como o livro dele e esta é também uma memória partilhada que resulta de uma compilação de memórias.

Há dias um amigo meu disse-me que tinha estado a pensar e que eu já tinha alcançado todos os propósitos de vida – plantei uma árvores, tive um filho e escrevi um livro… E isso fez-me reflectir, porque na realidade este livro abarca isso tudo. Reflecte o olhar atento do meu filho sobre o mundo, olhar esse condensado sob a forma de livro, livro esse que é feito de folhas que derivam das árvores! É engraçado pensar neste encadeamento simbólico…

O que dirá Vicente quando terminar ele próprio de ler esta obra?

V.M: O Vicente recentemente pediu-me para reler as várias passagens do livro e surpreendentemente as reacções foram sendo várias… Algumas das situações já não se lembrava, noutras corrigiu o vocabulário, noutras teve espírito crítico face ao que estava registado, em diálogos mais exigentes do ponto de vista emocional, nomeadamente os relacionados com as perdas, acabou por se emocionar, noutros gargalhou, noutros sentiu alguma vergonha por antecipar a reacção das pessoas ao lerem o livro… Enfim, penso que esta obra mexerá com as emoções do leitor e servirá de mote a muitos outros registos que ficarão para a história… Pelo menos assim espero!

Obra: Coisas de Vicente
Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Entre na sua conta
Cordel d' Prata

Aceda aos seus dados, encomendas e wishlists ❤