A Reação de Afonso Robles à Pandemia 2020

Em 2020 uma pandemia a todos atacou direta ou indiretamente com a sua alta taxa de contágio fora do seu alcance de propagação ficou a reação própria aliada ao pensamento de cada pessoa enquanto indivíduo único. A Cordel d’ Prata sentou-se com a autor Afonso Robles, natural de Vila Nova de Gaia e autor da obra A Mulher Que Meteu Medo Ao Diabo para perceber qual a sua reação.

A escrita, tal como um confinamento, não deixa de ser um ato de coragem. Se o primeiro se marca como o enfrentamento de uma claustrofobia entre quatro paredes, o segundo revela a coragem do espírito, da indagação. 

Afonso Robles

No seu confinamento social é a escrita quem se solta?

Vou começar este questionário com uma confidência. Desde os primeiros sinais relativos à aproximação de um confinamento social, o meu cérebro indagou duas alternativas. E o mais curioso relativo a estes dois caminhos, era que ambos necessitavam de uma realização. Portanto, aproveitar os primeiros tempos vividos sobre a bruma do Corona para estudar ou para dar asas à escrita? Julgo que a escolha recaiu sobre o tema que menos tedioso se me afigurou. E lá vem a escrita, tão necessária quanto o é também uma boa tarde de estudo em cima de uma véspera de exames. 

O curioso da escrita é que se revela sempre a medo. Uma ideia é lançada, conjugam-se vários fatores, a premissa promete os seus laivos de sensatez. Mas, quando tudo fica delineado, lá vem aquele medo insignificante que nos faz adiar a data prometida mentalmente.

Quais as rotinas desta ínfima quarentena? 

Como atrás mencionado, uma cota parte rotineira terá sempre de passar por um estudo alargado. Portanto, como me considero um indivíduo um quanto preguiçoso, necessito das primeiras três horas do dia para espairecer. Tendo em conta uma regra geral, que a preguiça pode existir, mas também devemos manter uma certa disciplina, acordo sempre às sete da manhã em ponto. Vejo uma das minhas séries prediletas – e muitas foram aquelas que neste confinamento se deram por terminadas, o que, tal como o final de um bom livro, muita pena se fez revelar – e por volta das dez horas, lá me vejo frente-a-frente com a matéria do dia.

Há pouco falava em cotas-partes. Sempre que uma dessas fatias diárias me sobra, aproveito para iniciar uma nova leitura. Fator considerado por mim importante, uma vez que não existe qualquer outra formação destinada a uma boa prática de autor, do que aquela que nos leva a decifrar as palavras e a mente de um outro escritor. No fundo, todos somos papa-palavras, necessitamos tanto da leitura, quanto necessitamos de um papel e de uma caneta.

Assim se julgam os meus dias, deixo de fora “dormidas” e “comeres”, que essas são horas de pouca atividade e importância.

A escrita tem o condão de nos transportar para um outro estado ou Estado. Uma capacidade inegável de nos fazer observar novos caminhos e vidas, quando tudo o que temos de fazer é ler. Ler depois de escrever, é a única coisa que se pede. Assim se separa o trigo do joio. Assim percorremos um caminho válido, seja na nossa cabeça, seja na voz de quem estamos a retratar ou encarnar. 

Afonso Robles

A solução para o isolamento está na escrita? 

Num período como o que foi vivido até aqui, em que se afigurou, e ainda se vai afigurando, um isolamento temporário, a escrita mostra-se uma tão boa companheira, como qualquer outra ou qualquer outro que nos ajude a passar o tempo, a libertar a cabeça de frustrações, preocupações e outras coisas tais que apenas se fazem notar por negativas.

Agora, se estivermos a falar de um isolamento que de temporário nada tem, o exemplo maior é-nos dado através desta época nefasta. O isolamento social, demanda mais valores do que aqueles impostos por um Governo. O isolamento social pode ser o isolamento de todos os dias, um isolamento que dura há anos.

Considero-me uma pessoa de poucas amizades, de poucas falas que não as escritas. Contudo, sei ver, neste período acima de qualquer outro, a valência e a importância de amizades, de contactos, mais não sejam, de contactos verbais. O “isolamento” traz sempre algo de feio, seja uma epidemia global e social, seja um desequilíbrio social, que levará a problemas pessoais.

“A Mulher que meteu medo ao Diabo” é uma história de sangue, traição e sacrifícios. Além desde forte título; o que pode o leitor esperar? 

Pode esperar um pouco de tudo o que prende o imaginário coletivo. Desde o divino, atravessando os caminhos por onde o fabuloso nos guia. Aí se pararem e lerem com atenção, vão ficar especados às portas da morte. O que pretendo com este conto, é transmitir uma proximidade entre mim enquanto autor no momento da escrita e o público, que deverá ler a estória como se nela estivesse envolvido. Os caminhos da morte acolherão então o leitor nos braços de Deuses e seres que o dizem ser. Tendo o leitor uma crença em determinado Deus, ou estando alheio a qualquer fé, é uma leitura de pensamentos e carateres.

Se a Pandemia atual se comparasse à mulher da sua obra, o Diabo seria a sociedade?

Nada parece caracterizar mais o nosso quotidiano do que a realidade pandémica que atravessamos. E a realidade torna-se o próprio ser da sociedade. Muitas das vezes é vendido a essa mesma sociedade o que dela deve ser dito, como deve ser caracterizada e quais os males que ela faz nascer.

 Contudo, caso o Diabo fosse a sociedade, talvez um paraíso pessoal e comunitário fosse criado. Longe de mentiras e enganos propalados pelas altas instâncias. Por vezes, dou por mim a pensar que o Diabo é encarado como o recetáculo de todos os males, assim como a sociedade também o é. Interessante, é que a sociedade se encontra, na realidade, impregnada por um mal. Um mal que muitas vezes não nasce dentro de si.

Quererá isto dizer, que a Pandemia, a Mulher do meu livro, infecta tudo o que de toque pode ser alvo? Imagino que não, pois tal como na vida, assim como na sociedade, existe sempre uma hierarquia, uma “Instância”, que tal como o significado do termo indica, objeta quanto à resposta a ser dada. Talvez seja dessa objeção e desse topo que provém o mal. Repleto de danos que provocam pandemias e de coimas que estruturam uma sociedade, isentando-a da sua realidade.

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