Sou um homem estranho, como que vazio, oco. Olho para as folhas dos plátanos a dançarem tocadas pelo vento e nada me dizem. Olho para o cão que passa na rua a lamber as mãos do dono e não encontro nisso qualquer enternecimento. Olho para a rapariga da mercearia, com pouco mais de dezoito anos, que tem um corpo esbelto, a baixar-se e a revelar-me o rabo empinado, e não me invade qualquer excitação. Chamo-me Constantino, tenho trinta e seis anos e preciso urgentemente de sentir alguma coisa.
João Albano Fernandes (Aguada de Cima, 1989) formou-se em Arquitetura pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra em 2013 e trabalha na área desde então. Em paralelo, vem dedicando-se à escrita de ficção narrativa. Em 2019, venceu o concurso Jovens Criadores com o conto A minha primeira corrida. Em 2020, venceu o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra Desafortunados, o seu primeiro livro publicado. Em 2021, venceu o Prémio Literário da Cordel d’Prata com o romance Uma Última Solidão, que agora publica. Faz ainda teatro num grupo académico, acreditando sempre que pode falhar melhor.
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