O que a Pandemia ensinou aos Autores?

Vivenciar a pandemia tornou-se algo “normal” para todos nós e a Cordel D’ Prata quis aprofundar esta questão e desafiou 6 autores a responder à seguinte questão: Afinal o que a pandemia ensinou aos autores?

A mesma questão foi realizada a Ana Salgueiro, Álvaro Caeiro, Octávio Pó, Eva Monte, Domingos da Cruz e Ricardo Claudino. Ao longo deste artigo descubra a opinião dos nossos autores!

Sermos proactivos, resilientes e fazermos uso do verbo adaptar!

Ana Salgueiro

Ana Salgueiro, o que a Pandemia ensinou aos autores?

A.S: Sermos proativos, resilientes e fazermos uso do verbo adaptar! 
Adaptar perante os recursos que temos à mão, ou seja, as redes sociais, e através delas interagir com os leitores, mantê-los interessados na nossa escrita. As entrevistas e conversas são feitas através dos diretos nas redes sociais, sendo esta a única maneira de criar proximidade com quem está do outro lado. 
Ser resiliente em tempos de Pandemia é uma forma de encarar tudo isto e de não perder o rumo, ou de apenas desistir disto tudo e parar de escrever.

Temos que ser ainda mais criativos, fazer bom uso das redes sociais para manter a comunicação com as pessoas que nos seguem diariamente.
A Pandemia também dá muita inspiração, e serviu para fazer uma boa retrospetiva de quem somos, do que queremos e do que desejamos alcançar.
Trabalhar diariamente, eu não considero trabalhar pois escrever é uma paixão, é algo que me faz muito feliz, por isso nunca vou encarar como um trabalho, mas como algo que faz bem!

Aprendi a cozinhar e convidei a minha mulher para um jantar à luz das velas.

Álvaro Caeiro

Álvaro Caeiro, o que a Pandemia ensinou aos autores?

A.C: A pergunta era simples, ou talvez não. Sentei-me em frente ao computador e reli mais uma vez a questão: 

O que a Pandemia ensinou aos Autores? Vou tentar ser sintético:

Escrevi, escrevi muito para conseguir manter a minha sanidade mental em perfeito equilíbrio. Aprendi o significado da palavra: relação. A pandemia ensinou a ter uma “relação” mais profunda com a escrita, descrevendo o mundo que me rodeia, ou mesmo a falta dele.

Aprendi que existe um “novo mundo” criado por um simples vírus denominado SARS-CoV-2. Aprendi a cozinhar e convidei a minha mulher para um jantar à luz das velas. Aprendi a trabalhar em casa, aprendi a dar mais valor à vida e aos pequenos pormenores, aprendi a ser mais humano, aprendi a não ser tão egoísta. Aprendi a ter medo, aprendi a cantar, aprendi a importância das máscaras e do gel, aprendi a partilhar… Aprendi a amar de novo, a olhar para a vida com outros olhos, aprendi a compreender o Outro, mesmo que o Outro não seja meu irmão, aprendi que por tão pouco podemos ser tão felizes, basta ter confiança no futuro e amigos que se preocupem convosco. É tão fácil ser feliz… Aprendi que o sete não é um número perfeito, é simplesmente um número igual a todos outros. No fundo, é isso que sou… um ser igual a todos os outros.

A distância mesmo que seja por umas horas, dava-nos o prazer de chegar a casa, e dar um abraço e um beijo, agora os mesmos tornaram-se repetitivos, que mecânicos.

Octávio Pó

Octávio Pó, o que a Pandemia ensinou aos autores?

O.P: Falar em Pandemia? E sobre nós? Autores/escritores? Nós, além de tudo, somos pessoas comuns. Também somos um problema, dentro de muitos problemas. Que, por acaso, estavam escondidos debaixo do tapete. Quais? Alguns, a saber:

Lidar 24 horas com mulher/marido e filhos, numa amálgama de cheiros, roupas e comida. Trabalhar focado: como é que um professor, um gestor, um escritor, por exemplo, podem estar em conferência, em teletrabalho, com o filho mais novo a pedir para ir urinar? A distância, mesmo que seja por umas horas, dava-nos o prazer de chegar a casa e dar um abraço e um beijo. Agora, os mesmos tornaram-se repetitivos, quase mecânicos. É como comer bife todos os dias. Sexo: quando, a que horas: durmo às 10.00 da noite ou às 05.00 da manhã? Praticamos em poses tântrico-meditativas ou com gemidos fingindo dores nas articulações?  Os telejornais que já eram repetitivos, agora são água aos pingos, caindo no silêncio das casas, em que cada membro anda agarrado ao telemóvel, jogando jogos de guerra e/ou vendo imagens fúteis de barbies em desuso.

Mas nós, autores, temos algo mais, vejamos: para uns, como eu, o cheiro do papel, conta muito, como o perfume inebriante de uma mulher envolta em mantos perfumados, onde os vamos desfolhando véu a véu, até encontrarmos o Paraíso: A Árvore da Sabedoria, com os seus Ramos-Livros. Tirarem-nos a Beleza e a Memória do Éden? Para outros – eu também estou lá -, é a Amizade que um Livro proporciona. Um Ser Vivo. No doubt, em inglês fica melhor. Digam-me, quem é que pode fazer isso? Retirarem o gelado a uma criança?

A Pandemia veio mexer com a nossa rotina, penso que de todos nós, e eu não fui exceção.

Eva Monte

Eva Monte, o que a Pandemia ensinou aos autores?

A Pandemia veio mexer com a nossa rotina, penso que de todos nós, e eu não fui exceção.

Com uma casa sempre cheia, contado comigo, com o meu marido, 3 filhos e um cão, os momentos que podia dedicar aos meus sonhos que voam ao som da música, à reflexão sobre sentimentos e momentos e dar assas às palavras, que escritas, fluidas e sentidas, dão corpo aos pensamentos, rarearam. A Pandemia acabou por vir agitar o meu mundo com mais brincadeiras, conversas, necessidades e tarefas que me envolveram tanto mais tempo. Desse, pouco restou para os meus tempos de solidão confortável e para deixar as minhas mãos bailar a escrevinhar, mas, como em tudo na vida, a moeda tem sempre o seu reverso e estes tempos de Pandemia mostraram-me e fizeram-me tomar ainda mais consciência de que… não quero estar só!

Dito isto, a outra lição é que diante da tragédia há sempre vencedores e vencidos.

Domingos da Cruz

Domingos da Cruz, o que a Pandemia ensinou aos autores?

Esta sindemia com implicações ainda por apurar, dela tirei 21 lições. Para o propósito destas linhas, gostaria de partilhar somente quatro. A primeira diz respeito à escrita imaginária. Antes da Pandemia, eu acreditava que a ficção terá ido longe demais na sua fertilidade criativa. Entre as obras que me tinham levado a esta conclusão estão Feras de Lugar Nenhum (Uzodinma Iweala), Parable of the Sower (Octavia E. Butler) e Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago). Essencialmente, estes autores levaram-me a inferir que as suas obras não passavam de um mundo imaginário, e profundamente subjetivo. Impossível de se materializar. Finalmente, chegou a Pandemia e, através dela, conclui que afinal a ficção não foi tão longe. A realidade ultrapassa-a.

Outra lição profundamente ligada à anterior, tem que ver com a possibilidade de o risco existencial global se concretizar. Há alguns anos, um número restrito de filósofos, ecologistas e cosmólogos debatem entre pares a possibilidade do mundo como o conhecemos desaparecer à escala global, tendo como fundamentos os dados históricos e o modo de vida do nosso tempo. Esta sindemia, parece confirmar com clareza, que esta hipótese está próxima da realidade. Sobre este assunto, a Inteligência Artificial também deu a sua contribuição através de simuladores computacionais, que permitem fazer previsões sobre a destruição global de “proporções armagedónicas”. Dito isto, a outra lição é que diante da tragédia há sempre vencedores e vencidos. Sobre os vencidos do nosso tempo, não há muito que se diga porque está tido as claras . O vencedor é sem dúvida o algoritmo e os seus proprietários. Para que não restem dúvidas, basta olhar para os lucros da Amazon, Facebook, Google, Zoom, entre outras, que nunca ganharam tanto quanto sucedeu em tempo de sindemia

Finalmente, o charlatanismo de bases religiosas escondeu-se durante a Pandemia. O SARS-CoV-2 demonstrou ante aos problemas reais, que precisamos da ciência. A fé razoável pode dialogar com esta ciência. Mas o charlatanismo e os seus promotores desapareceram porque o vírus os derrotou. Demonstrou a inutilidade do charlatanismo fideísta. O charlatanismo que por enquanto está entrincheirado, no final da pandemia há de reaparecer para perpetuar tragédia dos miseráveis do mundo.   

Numa queda sem amparo, invejamos todo o tempo do mundo quando apenas o nosso seria suficiente para viver.

Ricardo Jorge Claudino

Ricardo Claudino, o que a Pandemia ensinou aos autores?

Na verdade, a Pandemia não ensinou nada de novo. Quando surge uma ameaça, o indivíduo ensina-se a si próprio porque existe um estímulo natural para a autorreflexão.

O autor é um indivíduo que cria histórias de acordo com a sua verdade. O seu trabalho e inspiração são processos que começam através do estímulo.

A Pandemia veio confirmar tudo o que já sabíamos sobre o voo dos pássaros mas que no fundo nunca tivemos tempo para entender.

– Numa queda sem amparo, invejamos todo o tempo do mundo quando apenas o nosso seria suficiente para viver.

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Entre na sua conta
Cordel d' Prata

Aceda aos seus dados, encomendas e wishlists ❤