Joaquim Saial: “As catástrofes definem campo fértil para crónicas, de maior ou menor dimensão”

O autor e mestre Joaquim Saial define em poucos parágrafos a problemática do confinamento social e de que forma poderosos aliados, como a leitura e a palavra, são essenciais no conforto e na evolução da sociedade. A mensagem é clara andar para todo lado com um livro, tal como se anda com um telemóvel.

Para os que viveram a época de chumbo anterior a 1974, estes inesperados tempos de confinamento constituem uma espécie de “já visto” do medo, embora na actual conjuntura se desdobrem em versão suave. Desta feita, sem dúvida, revestem-se de contrariedade benéfica, afinal vantajosa, sem inimigo inventado, pois o vírus maldito é bem real e espreita ao virar de cada esquina, de cada espirro, de cada ataque de tosse. Para os que vieram depois ao mundo, a clausura forçada é novidade absoluta, completamente estranha e demasiado incómoda, embora também lhe reconheçam as vantagens. Digamos que todos perceberam que há males necessários de quebra de liberdade, com os quais há que contemporizar, em função do bem comum, ainda que isso retire por algum período direitos considerados caros. Enfim, o que é, é; e o que é, tem de ser…

O livro compete com o cão, quando se trata de obter a insígnia de ser “melhor amigo do homem”

Joaquim Saial

O livro compete com o cão, quando se trata de obter a insígnia de ser “melhor amigo do homem” (ou da mulher…), com o predicado de estar disponível a toda a hora e não necessitar de alimento pois é ele próprio material nutritivo (espiritual) de quem o possui, de quem o abre, de quem o lê. E não esqueçamos, em registo humorístico e parafraseando Groucho Marx, que “Tirando o cão, o livro é o melhor amigo do homem; contudo, dentro de um cão está muito escuro para se ler.” Sempre disponível, é capaz do sortilégio de nos abrir o horizonte da imaginação, remetendo-nos para paragens incomuns. Faz-nos sonhar, transmuta prisioneiros em homens livres, permite saltar da Terra-mãe para outras galáxias e transporta-nos num ápice tanto para a selva amazónica como para os sombrios Cárpatos, dos fundos oceanos para o Kilimanjaro, sem que saiamos do conforto do acolhedor sofá do escritório ou da sala. Em suma, é um amigo que nunca nos desilude, jamais nos trai, sempre pronto para nos atender e confortar.

As catástrofes definem campo fértil para crónicas, de maior ou menos dimensão e são frequentes os poemas, contos, novelas ou romances de sucesso que resultam da vivência de desastres naturais, sanitários ou de guerra, espécie de catarse aplicada pelos seus autores aos dramas vividos. Na realidade, a escrita configura-se como notável lenitivo, capaz de ajudar a combater a depressão provocada pelos magnos males com que a espaços o ser humano se vai defrontando e por isso é natural que os autores os procurem ilustrar através das suas “canetas”. No meu caso, logo no dealbar da crise e cumprindo a tradição, escrevi a short story que aqui deixo, sob o título “O Último Homem”:

Tinham sido os dias da grande pandemia. O último homem, que vivera num recôncavo frente ao oceano, já muito fraco, saiu nessa manhã para ver o mar. Em rocha próxima, que emergia da água, estava pousada uma gaivota. O homem sorriu, pensou que afinal não morreria sozinho e finou-se. Instantes após, o pássaro levantou voo e dentro em pouco estava no meio do seu bando, participando em concorridos voos picados, na apanha de alimento. Por aquela praia, nunca mais se viu ninguém.

Como será diferente esperar, tendo um livro connosco, como será tão diferente… e tão útil.

Joaquim Saial

Após qualquer cataclismo, é preciso tirar ilações sobre o desenrolar da mesmo. No presente caso, a par do desgosto pelo irremediável e elevado número de mortes provocadas pela pandemia em Portugal, fica o que aconteceu com os vivos e o que para eles se desenha no horizonte nos tempos vindouros. E já que de livros falamos e porque parte substancial dos “tratamentos” que se avizinham implicam demoradas esperas em filas de restaurantes, supermercados, consultórios médicos e outros locais de utilização pública, parece necessário seguir o bom hábito civilizado que ainda não adquirimos e se observa com facilidade em países de instrução superior à nossa que é andar para todo o lado com um livro, tal como se anda com um telemóvel, as chaves de casa, o maço de cigarros, o pente ou o batom. Como será diferente esperar, tendo um livro connosco, como será tão diferente… e tão útil.

Texto da Autoria de Joaquim Saial

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